Sábado, o cineasta romano Daniele Luchetti completa 60 anos, mas o seu presente veio esta sexta: é o realizador de “La Nostra Vita” (2010) quem vai inaugurar o 77º Festival de Veneza (2 a 12 de setembro), com “Lacci”. Mais uma vez este campeão de bilheteiras envereda pela seara da “dramédia”, ao reconstituir a Nápoles dos anos 1980, para narrar os conflitos no casamento de Vanda e Aldo, que entra em xeque depois que se apaixona por Lídia. Mas o mote da trama é o facto de, 30 anos depois da separação de corpos, eles continuarem legal e afetivamente casados. A base do enredo, que tem Alba Rohwacher e Luigi Lo Cascio como protagonistas, é um romance “Laços”, de Domenico Starnone. No elenco, Luchetti conta ainda com Laura Morante, Silvio Orlando, Giovanna Mezzogiorno, Adriano Giannini e Linda Caridi. A longa-metragem passa no Lido fora de concurso. Há 11 anos uma produção italiana não inaugurava o evento: “Baarìa”, de Giuseppe Tornatore, foi a último a fazê-lo, em 2009.
“Gosto de rir, de fazer rir e de mostrar que esse riso tem uma profundidade de lágrimas. Eu prefiro os corações livres do que ideologias, amarras criativas”, disse Luchetti ao C7nema, em 2019, ao lançar “Momenti di trascurabile felicita”. “Muito se fala e se pensa em política na Itália, mas não é esse o caminho que sigo e sim o do humanismo, buscando um paralelo entre os afetos e as contradições sociais. Percebo que troquei o neorrealismo pelo que chamo de “neoirrealismo”. É assim que eu batizo o meu esforço de abordar o mundo real sob um filtro de humor. Gosto de transgredir normas, entre elas a de uma obrigatoriedade autoral que se impõe por aqui, na Itália, e que leva os realizadoras, das mais variadas gerações, a evitar projetos que falem com o público de modo mais direto e frontal”.
Não é da natureza do realizador de “Chiamatermi Francesco – Il Papa Della Gente” (2015) – uma presença habitual em festivais de prestígio como Cannes, Locarno e San Sebastián – repensar o passado, sobretudo o do seu país nos ecrãs. Apesar de seu respeito pela tradição neorrealista de Rosselini, De Sica & cia. e da verve política de Marco Bellocchio e Elio Petri, ele filma comédias (algumas delas cheias de dor e fúria, como “Anos felizes”) para se libertar de referências e conceitos institucionalizados e buscar sua voz autoral própria. Sucesso de público e crítica, a sua obra é focada em costumes e afetos refreados por amarras morais.
“Acredito ter a vocação de fazer filmes de entretenimento, mas sem abrir mão de conteúdo, sem impedir que a gargalhada bloqueie o pensamento e, até, a indignação. Foi o que aprendi com o cinema americano dos anos 1970 de cineastas como Robert Altman e Hal Ashby. Aquela década foi a última era do filme adulto dos Estados Unidos”, disse Luchetti.

O seu cinema não tem medo de se apoiar mais na palavra do que em experimentações plásticas com a imagem. “Não sou um diretor de métodos ou de projetos teóricos. Cresci nos anos 1970, a época áurea do cinema político italiano, com Elio Petri, Francesco Rosi, Marco Bellocchio. Não por acaso, um dos meus primeiros filmes, “Il Portaborse” (em português, “O homem da pasta”), tinha uma carga política. Mas eu busquei um caminho distinto e a França serviu-me melhor para isso do que os mestres italiano”, disse o cineasta. “No início dos anos 1980, franceses como Éric Rohmer, Jacques Rivette e François Truffaut fizeram filmes que me marcaram muito, como “Pauline na praia”, de 1983, no uso da palavra. Esses diretores me mostraram que o real não vem, necessariamente, de uma mirada documental silenciosa para uma paisagem humana. Um bom diálogo pode revelar muito da realidade. É do trato com os atores que brota o real que me interessa estudar”.
Ao abrir a semana, na segunda passada, com o anúncio dos troféus honorários para a atriz inglesa Tilda Swinton (do recente “Suspiria”) e para a cineasta de Hong Kong Ann Hui, o Festival de Veneza deixou o planisfério cinéfilo a salivar com o que pode vir pela frente em programação, a ser aberta pelo “Lacci” de Luchetti. Será a primeira das grandes vitrines do cinema de autor a fazer um evento físico, presencial, desde o início da pandemia, uma vez que Cannes teve de abrir mão de acontecer, em maio, por conta do pico da Covid-19 em França. As suas atrações serão reveladas nesta terça. Para evitar uma avalanche de críticas relativas a precauções com a saúde dos seus frequentadores, a maratona veneziana, que já beirou 250 atrações, baixou seu cardápio do ano para 50 filmes, sem deixar pistas, até agora, acerca de suas escolhas. Estima-se, contudo, a presença de um Spielberg inédito no arranque: “West Side Story”. A estimativa era de que esta nova versão do clássico de 1961 fosse iniciar o evento, mas já se fala que Spielberg vá entrar no concurso, a fim de levantar o moral da disputa pelo Leão de Ouro deste ano abalado pela pandemia. A partir de um roteiro de Tony Kushner, o realizador de “Jurassic Park” (1993) revive o musical de dirigido por Jerome Robbins e Robert Wise em 1961, tendo Rachel Zegler e Ansel Elgort à frente de uma história sobre rivalidade de dois gangues, os Jets e os Sharks. O difícil é saber se o rei Midas de Hollywood vai mesmo querer competir.
Há outros títulos já cotados para a luta pelo Leão dourado deste ano, sendo “On The Rocks”, de Sofia Coppola, a principal aposta. Esta “dramédia” é calçada no carisma de Bill Murray como um pai ricaço em busca de uma reinvenção afetiva com a sua filha, Rashida Jones, já é encarada como uma potencial candidata ao Oscar pelo papel. Mas é grande também a conversa em torno de “Lingui”, do chadiano Mahamat-Saleh Haroun, sobre uma mãe muçulmana às voltas com o desejo de sua filha adolescente, grávida, de fazer um aborto. Haroun ganhou fama mundial há dez anos, ao conquistar o Prémio do Júri de Cannes com “O Homem Que Grita”. À época, 2010, ele era o único diretor de longas-metragens de ficção em atividade no Chade. Hoje, é um dos nomes mais aclamados do continente africano quando se pensa em cinema. Acredita-se ainda que o egípcio A.B. Shawky vá tentar uma vaga na com um filme inédito sobre o quotidiano do Cairo.
É também forte a claque para que o japonês Hayao Miyazaki finalize o seu novo desenho animado, “How Do You Live?”, a tempo de concorrer. A animação dele fala de um rapaz às voltas com os ritos de passagem da adolescência. A França vai atacar com Balzac, numa adaptação de “A Comédia Humana”, com direção de Xavier Giannoli, tendo o mito Gérard Depardieu em cena. O veterano ator ainda regressa pelas vias literárias de Georges Simenon em “Maigret et la jeune morte”, de Patrice Leconte.

