Daniele Luchetti: “chegou a hora de fazer filmes mais fundamentalistas, mais puros”

(Fotos: Divulgação)

Para Daniele Luchetti, “os atores estão no centro de tudo”. O realizador de filmes como O Homem da Pasta (1991), O Meu Irmão é Filho Único (2008) e A Nossa Vida (2010)  chegou a trabalhar no início da sua carreira com Nani Moretti, mas considera o seu Cinema muito diferente do dele. Presente na Festa do Cinema Italiano para apresentar o seu penúltimo trabalho, Io Sono Tempesta, Luchetti teve tempo para conversar com o C7nema.

Na obra seguimos Numa Tempesta (Marco Giallini), um homem com dinheiro, carisma, bom sentido de negócios e poucos escrúpulos. Um dia, uma velha acusação por fraude fiscal leva-o a ser condenado a um ano de serviços comunitários, ficando assim à disposição dos pobres. É assim que conhece Bruno (Elio Germano), um jovem pai sem-abrigo, que visita frequentemente o centro com o seu filho. Este encontro parece oferecer a ambos uma oportunidade de redenção mas Numa vai descobrir que quando o dinheiro está envolvido, é difícil distinguir o bem do mal.

Nos seus filmes o dinheiro é sempre um elemento chave. O dinheiro e o que as pessoas estão dispostas a fazer por ele. Capazes de se corromper por ele…

Sim, é verdade. Eu tento capturar a atmosfera de um país e nos últimos anos tem sido dominante o facto de sermos governados em torno do dinheiro e não das ideologias. No final dos anos 70, em Itália, eram as ideologias que dominaram tudo: Direita- esquerda, socialismo- democracia cristã. Com a caducidade dessas ideologias na segunda metade dos anos 80, o dinheiro ficou no centro. Nesses tempos, a questão era: “Como vamos ser felizes?“. Agora, a questão é: ‘Como vou aumentar o PIB do país, a sua riqueza?

Eu gosto de trabalhar personagens que projetam no dinheiro uma expectativa que ele não pode faltar nunca.

Trabalha frequentemente com o Elio Germano, é o seu ator fetiche?

O Elio é um ator importante para mim. Tem estado nas minhas obras principais. Na minha forma de ser tento descobrir uma maneira de trabalhar com os atores, um trabalho baseado nas emoções, na emotividade. Com ele usei uma nova técnica, que não é bem uma técnica, mas mais uma forma de ser. Acho que nos ajudamos muito, pois ofereço um trabalho binário muito restrito, baseado no contar uma história, e ele entrega-me a emoção.

Ele tem sido importantíssimo, não só por ser um ótimo ator, mas porque mudou a minha maneira de trabalhar com os atores.


Elio Germano e Marco Giallini em Io Sonno Tempesta

A ideia para o protagonista do seu filme nasceu na personagem real do Silvio Berlusconi, mas mais tarde esse protagonista evoluiu noutro sentido. Que influências teve para criar este chico-esperto?

Este filme foi complicado. Eu inicialmente pensava em fazer uma comédia política, mas as coisas mudaram muito, pois não aceitei a simplificação dos temas. Fiz um filme de quatro horas o qual fui cortando, cortando, cortando até chegar a esta fita que não é totalmente uma comédia política, não é sobre Berlusconi, nem nada disso. Acima de tudo é como o nosso inimigo social, o rico, tornou-se nosso amigo. Isto é ainda mais forte, perigoso, diabólico, mas também simpático. Talvez seja porque os ricos tornaram-se simpáticos…

Nos anos 80, isto era impossível acontecer. O tipo rico, de poder, da alta finança, era o nosso inimigo. Neste filme, o inimigo social tornou-se no amigo “social” (aqui o realizador dá um sotaque britânico à palavra, numa referência às redes sociais).


Marco Giallini em Io Sonno Tempesta

Mas acha que realmente houve uma mudança nessa relação entre ricos e pobres, ou será que foi o Danielle que “cresceu/amadureceu” e percebeu essa proximidade nas relações entre ambos?

Não, vamos ver: em Itália votamos num milionário como o Silvio Berlusconi para dirigir o país. A classe mais pobre votou nele. Nos EUA igual, com Trump. Isso tem a ver com a mudança das coisas, em vez de sobressair a ideologia, vota-se pela emotividade e empatia. Os nossos políticos de direita e extrema direita tiram fotografias a comer uma sandes, a tomar um banho na piscina, etc. Isto faz com que as pessoas mais simples sintam que eles são “vizinhos”, parecidos a si, mesmo que estejam distantes nas ideologias. Nas redes sociais, por exemplo, vemos os ricos a comer um gelado como os pobres, a terem tatuagens como os pobres, etc, etc. Essa falsa sensação de vizinhança e proximidade é muito perigosa.

O filme procura em modo sátira a relação entre a riqueza e pobreza.

Surgiu numa era em que já se lamentava a perda da Era de Ouro do cinema italiano, com os desaparecimentos de Fellini, etc, etc. Até que ponto esse peso do legado pressionou os cineastas da sua geração e como isso influenciou as suas escolhas cinematográficas?

Sim, ficamos órfãos dos mestres e foi um grande drama conseguirmos destacarmo-nos deles. Estávamos num contexto cultural completamente diferente. O Cinema era o centro de tudo. Nos anos 60, o cinema era o centro da vida cultural do nosso país e do mundo. O cinema capitalizava os mais inteletuais do nosso país, os melhores artistas, os melhores atores. Quando comecei a fazer filmes tudo isto tinha acabado e o ato inteligente era ter decidido fazer outras coisas (risos).

Primeiro, o cinema italiano tentou libertar-se dos mestres. Por exemplo, a fazer filmes centrados na realização. O cinema do início dos anos 80, tentando imitar Antonioni, Fellini e Pasolini, era constituído de filmes essencialmente baseados na realização. Foi preciso reconstruir uma classe de argumentistas, reconstruir uma classe de atores. Na verdade, tivemos de começar do zero (…)

E como vê o cinema italiano agora, como indústria, arte e com a entrada das plataformas de streaming?

Estamos num momento de transição enorme. O streaming está a mudar tudo. Os realizadores, argumentistas e atores estão a trabalhar imenso, mais que antigamente, mas não para o cinema. Trabalham mais para a TV, para o streaming. Os filmes em sala são um desastre (económico), mas as obras têm uma vida mais longa depois delas.

É um momento de transformação porque a indústria está a adaptar-se. Até nós estamos a adaptar-nos. Nós sabemos que hoje em dia o nosso filme vai ter uma vida muito curta nas salas de cinema..

Chegou a hora de fazer filmes mais fundamentalistas, mais puros. Não podemos continuar a fazer filmes que são um pouco comédia, um pouco drama, um pouco para nichos, mas também para grande público. Se queremos combater o streaming com cinema de arte, então que ele seja melhor. Com cinema de entretenimento? Então que seja melhor.


Marco Giallini em Io Sonno Tempesta

Tem novos projetos?

Tenho um filme que já estreou (Momenti di trascurabile felicità, 2019), e tenho outro que estou a preparar. Também, nos próximos dois anos, espero fazer a minha primeira série de TV.

E pode falar um pouco desses novos projetos?

Sim, estou a adaptar o livro Laços do Domenico Starnone. É uma história de dinâmica familiar que se desenrola durante 30 anos. É uma espécie de saga familiar em que a traição é o ponto central.

A série que vou fazer é internacional e aborda o estado político da Europa neste momento.

Li num site que adora cinema de terror?

Sim (risos).

Porque nunca trabalhou nesse género?

Provavelmente porque não sei como fazer esses filmes (risos). Eu gosto porque me dão medo e é um sentimento que gosto de sentir. Depois, como não sei fazer, gosto de ver uma coisa que não sei fazer (risos). A terceira coisa que gosto é que com pouco dinheiro ou história faz-se um bom filme de terror. Gosto dessa simplicidade. O objetivo é o medo. Pronto. É só isso, não há cá ambiguidades.

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