Desinibido exemplar sul-americano da RomCom (romantic comedy), “Todo Mundo (Ainda) Tem Problemas Sexuais” demarca a chegada da atriz, documentarista e produtora Renata Paschoal à realização de longas-metragens de ficção. Chega às telas do seu Brasil de berço esta quinta-feira, depois de passagens pela Mostra de São Paulo e pelo festival Cinemina. É uma narrativa em quatro episódios, que abordam temas como ménage a trois, ciúmes e prazeres plurais. O seu título faz referência à peça teatral (e à sua adaptação cinematográfica homónima, de 2008) de Domingos Oliveira (1935-2019), prolífico parceiro profissional de Renata. Ela produziu vários filmes de culto do dramaturgo e cineasta e está em cartaz no Rio de Janeiro (na sala de teatro batizada com o nome do realizador no Planetário da Gávea) com um espetáculo escrito por ele: “Dois Contra o Mundo”.
O “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais” dos anos 2000 foi idealizado sob uma lógica que Domingos chamava de BOAA, que significa Baixo Orçamento e Alta Astral. O termo refere-se a uma engenharia artística de filmar com recursos mirrados e muita solidariedade da equipa e do elenco. Renata procurou essa mesma filosofia na sua comédia sobre o querer, num trabalho com uma trupe que reúne Priscilla Rozenbaum, Letícia Lima, Totia Meirelles, Sophia Abrahão, Hélio de la Peña, Cauê Campos e Dudu Azevedo.
Vencedora do troféu Kikito de Melhor Documentário do Festival de Gramado de 2024 por “Clarice Niskier – Teatro dos Pés à Cabeça” (hoje no ar no Canal Curta! e no CurtaOn), Renata fala ao C7nema sobre a sua imersão na seara do bom humor.
O que trouxe do método BOAA para o modo de produzir o teu filme? O esquema de produção que usava nos seus projetos com Domingos Oliveira ainda é aplicável?
O BOAA, o projeto de Baixo Orçamento e Alta Astral, foi criado na minha primeira produção, a longa-metragem, “Carreiras”, de 2005. Depois disso, praticamente todos os meus filmes foram de baixo orçamento. A minha primeira experiencia de cinema com grande orçamento foi o filme “Simonal”, com Fabricio Boliveira e Isis Valverde. Sou coprodutora desse filme, que custou R$ 8 milhões, na época (2018). Fazer um filme B.O. (sigla brasileira para Baixo Orçamento) é um grito de guerra, uma urgência artística. O artista tem pressa, não dá para dar pausa na criação. É muito angustiante a longa espera pelos editais, pelas leis patrocínios. Comecei tarde na direção. Tenho 49 anos. Se ficar à mercê desta longa espera pelos incentivos fiscais talvez não tenha tempo de realizar os projetos que desejo. Domingos Oliveira dizia que estava sempre 500 anos atrasado. Tenho a mesma sensação.
Como fazer comédia (e de tons românticos) diante das patrulhas ideológicas de hoje?
O argumento do “Todo Mundo (Ainda) tem Problemas Sexuais” foi escrito por Domingos há 20 anos. Tivemos o cuidado de chamar parceiros com diferentes visões e idades para adaptarem esse argumento. Fazer comédia romântica ou qualquer tipo de comédia nos tempos de hoje pode ser um desafio, mas não é impossível. Há muito humor inteligente, empático, sem ofensas. É muito bom quando rimos de nós mesmos. Isso é inteligência emocional, é evolução. De toda forma, é impossível na arte agradar a todos. O Domingos ensinou-me uma lição que nunca esqueci: “Se alguém não gostar do teu filme, não fiques triste. É apenas um filme. Daqui a pouco a gente faz outro”. Histórias boas não faltam, quem sabe a gente fecha a trilogia: “Todo Mundo (Ainda) Tem Problemas Sexuais”, “Todo Mundo (Continua) Com Problemas Sexuais” e, pra fechar, “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais (Para Sempre)”.
O seu documentário sobre Clarice Niskier é uma celebração do papel de uma atriz/ um ator na sociedade, em formas de invenção muito pessoais. O que Niskier deixa como legado para você na sua porção atriz – a sua profissão de berço – e para a sua porção realizadora?
O filme é minha homenagem e o meu amor ao oficio do ator e ao teatro. Tive a sorte de estrear na realização e (na escrita do) argumento de documentário com uma atriz que transborda arte, ama o teatro, dedica a sua vida a ele, e possui grande inteligência e generosidade. Ganhei o Kikito de Melhor Documentário no Festival de Cinema de Gramado de 2024 e, atualmente, ele está disponível no streaming Curta!On. Atualmente, estou com dois novos documentários em processo: “Homem de Muitos Amores”, sobre o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino, e uma longa-metragem sobre a atriz Irene Ravache.

