Tom Tykwer chegou ao cine Reserva Cultural, em Niterói, para ouvir das plateias brasileiras o eco afetivo e o ruído geopolítico que podem ser causados pelo seu novo filme, “Das Licht”, que foi traduzido literalmente para o português como “A Luz”. A sessão em que o realizador – um alemão de Wuppertal, nascido em 23 de maio de 1965 – encarou as plateias do Brasil integra o 1° Festival de Cinema Europeu Imovision, que segue até o dia 30. Até lá, a longa-metragem germânica passeia por mais 34 cidades, a integrar uma programação com fitas da França, da Grécia e de outros territórios do Velho Mundo.
“Emmanuelle”, de Audrey Diwan, e “A Arte do Caos”, de Thomas Arslan, são parte da seleção. O exercício de realização de Tykwer entra nessa pacote com o endosso da 75ª Berlinale. Foi a atração de abertura do evento berlinense. Tykwer já foi presidente do júri por lá, em 2018. Passou os últimos anos dedicado a uma série, “Babylon Berlin”, sem agenda para filmar longas-metragens. A sua obra do passado teve retumbância mundial durante o redesenho do audiovisual germânico na conversão do cinema analógico (em película 35mm ou 16mm) para o digital, na década de 1990. Os filmes de culto “Winter Sleepers” (1997) e “Run Lola Run” (indicado ao Leão de Ouro de 1998) fizeram a sua fama. Como eles, “Das Licht”/ “A Luz” investiga tensões dos afetos, numa estrutura de painel. O argumento investiga as práticas de incomunicabilidade (e de privilégio social) de uma metrópole. Nesse drama com toques não realistas de musical, uma família se amontoa num apartamento a administrar mal as suas desarmonias. O casal Milena (Nicolette Krebitz) e Tim (Lars Eidinger) lidera esse arranjo familiar, mas parece incapaz de ter prazer ou de manter uma interseção de olhares. Embora as complexidades do dia a dia distanciem os seus integrantes, eles ainda preservam algum amor, mesmo incapazes de criar consensos sentimentais.
A sequência em que comem macarrão coletivamente traduz a incapacidade que todas aquelas pessoas têm em disfarçar o seu enfado um com o outro. Quando passa a conviver com a síria Farrah (vivida por Tala Al-Deen), contratada como governanta, esse clã terá novas lições de empatia. O desempenho de Eidinger arrebatou elogios da Berlinale.
Nesta conversa ao C7, Tykwer reflete sobre as raízes da Alemanha no seu olhar.
De que maneira a dimensão solitária das personagens em “A Luz” traduz os dilemas da Alemanha de hoje?
Sob uma certa mirada, “A Luz” é um filme de família. Na essência, podes dizer que qualquer um dos seus elementos é solitário. Nós somos todos solitários. A experiência estética da ida a uma sala de projeção é solitária. Estás cercado por pessoas, mas imerges solitário nos filmes. Na trama que filmei, falo de escolhas. Escolhas são tomadas individualmente, sempre. Não são coletivas. Não na vida. E o cinema que busco fazer tentar investigar a vida e não ser uma mera distração. Existem, sim, temas germânicos, do agora, mas o filme não é sobre eles. Lembra-se do “The Lives Of Others” (“A Vida Dos Outros”, de 2007)? É um filme que se fecha em uma situação, num sujeito que escuta o cotidiano alheio, mas aquilo ganha a esfera universal em que qualquer plateia pode se projetar. Falo no meu filme de uma luta que causa medo e, a partir dela, alcança-se uma universalidade.
Desde “Run Lola Run” (1998), o seu cinema impressiona pela engenharia de som, numa destreza técnica que se fez notar, de novo, na Berlinale, com “A Luz”. Como a engenharia sonora de um filme que tem barulhos urbanos, chuva e números musicais é pensada?
Trabalho com o mesmo designer de som há 28 anos e temos um gosto similar em especial no apreço por sons analógicos, de fontes físicas. Penso na música e no som antes de filmar e não me rendo a ruídos realistas. Já que estou a falar de uma bolha, a partir de uma família, quero que o público possa sentir os engasgos deles.
De que maneira “A Luz” pensa o tema da exclusão?
Associa-se imigração a uma busca pela riqueza. O lugar comum das narrativas é a sociedade que recebe os estrangeiros ser tratada como uma instância de auxílio e amparo. No meu filme, os imigrantes é que ajudam uma sociedade em crise.
De alguma forma, os seus filmes estão sempre a falar de amor. De que maneira esse olhar traz elementos da cultura cinematográfica alemã, de histórias de amor germânicas como aquelas que Fassbinder rodou?
Adoro a história do cinema alemão, mas, ao criar, não faço escolhas conscientes em referência a ela. Quando rodei “Três” (“Triângulo Amoroso” no Brasil), escolhi uma atriz mítica do nosso cinema, Angela Winkler, para viver a mãe de um dos protagonistas. Estava todo tempo a pensar: estou a filmar uma lenda. Ali, foi uma referência potente, afetiva. Em geral, não ligo para referenciais assim na filmagem.

