Aos 72 anos, John Malkovich continua a ser um daqueles atores cuja simples presença transporta consigo várias vidas do cinema. Foi o Visconde de Valmont de Dangerous Liaisons (1988), atravessou o deserto de Bernardo Bertolucci em The Sheltering Sky (1990) e recebeu, em 1994, a sua segunda nomeação ao Óscar de Melhor Ator Secundário pelo psicopata Mitch Leary de In the Line of Fire (1993), obcecado com a ideia de assassinar o presidente dos Estados Unidos. Pelo caminho, quase entrou no universo de Spider-Man: esteve entre os nomes associados ao Duende Verde que acabaria entregue a Willem Dafoe e, anos depois, Sam Raimi queria-o como Adrian Toomes, o Abutre, no seu abortado Spider-Man 4. Antes disso tudo, teve o seu nome usado no título de uma comédia surrealista de Spike Jonze sobre as catacumbas da mente, Being John Malkovich (1999). Nesse percurso, construiu uma carreira feita de cinema de autor, Hollywood e escolhas imprevisíveis que encontra agora outro vértice em Wild Horse Nine, de Martin McDonagh.
A Coppa Volpi de Melhor Ator conquistada na 83.ª edição do Festival de Veneza confirma aquilo que os 116 minutos da versão apresentada em San Sebastián deixam evidente: McDonagh encontrou em Malkovich o corpo ideal para uma saga crepuscular sobre homens que carregam cemitérios dentro da cabeça. O ator é Chris, um veterano agente da CIA enviado, pouco antes do golpe de Estado chileno de 1973, de Santiago para a Ilha de Páscoa ao lado do parceiro e protegido Lee, interpretado por Sam Rockwell. A ordem vem do superior de ambos, MJ (Steve Buscemi). O que deveria ser uma missão transforma-se num confronto com conspirações, crimes pretéritos e com a proximidade da morte.
É uma iguaria dramatúrgica não apenas pela habilidade de McDonagh em transformar o assombro em riso nervoso — especialidade que atravessa a sua obra —, mas sobretudo pela maneira como vai desfiando o novelo da delicadeza. Chris está doente, tem os dias contados e começa a falar mais do que deveria sobre aquilo que fez ao serviço da CIA. A sua memória torna-se simultaneamente arquivo e ameaça, mas também uma tentativa desesperada de conferir algum sentido a uma existência construída entre prazeres, missões cumpridas e sangue derramado.
É aí que Lee se torna fundamental. Sam Rockwell, reencontrando McDonagh depois de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017), interpreta talvez a última centelha de humanidade disponível para Chris. Não se trata apenas de um colega de profissão, mas de alguém diante de quem aquele homem envelhecido ainda consegue medir o tamanho do estrago deixado para trás. Entre ambos existe a intimidade peculiar de quem partilhou segredos que não podem ser contados e sabe que sobreviver também pode ser uma forma de condenação.
O Chile de 1973 não funciona, portanto, como decoração histórica. Pouco antes do golpe que derrubaria Salvador Allende, McDonagh coloca os seus agentes norte-americanos num país atravessado por conspirações e interferência política, mas evita transformar Wild Horse Nine numa aula ilustrada. A História aparece contaminada pela memória individual, pelas omissões e pelas justificações que os homens inventam para continuar a viver depois daquilo que fizeram.
A Ilha de Páscoa amplia essa estranheza. Diante dos moais, monumentos construídos para sobreviver às gerações, Chris parece ainda mais pequeno perante a própria mortalidade. A fotografia dionisíaca de Ben Davis explora essa contradição entre a monumentalidade da paisagem e a decrepitude moral daqueles homens. Há uma beleza quase indecente no enquadramento de personagens perseguidas por um passado que não combina com a serenidade mineral do lugar.
McDonagh tempera esse inferno íntimo com a presença de duas estudantes rebeldes, interpretadas por Mariana di Girolamo e Ailín Salas, cuja aproximação a Chris ameaça alterar o curso da missão. Parker Posey e Tom Waits completam um elenco de luxo, enquanto Carter Burwell volta a oferecer ao realizador uma arquitetura musical capaz de conviver com a violência sem a transformar em espetáculo.
Mikkel E. G. Nielsen monta tudo como um thriller sobre a finitude. O suspense mais importante não está propriamente em descobrir o que a CIA fará ou o que aconteceu no passado, mas em saber quanto custa a um homem abrir o arquivo da própria existência quando percebe que já não dispõe de futuro suficiente para o reescrever.
É nesse território que Malkovich encontra um dos grandes papéis da sua maturidade. O ator que fez da ameaça uma forma de sedução em Dangerous Liaisons (1988) e converteu a psicopatia em inteligência performativa em In the Line of Fire (1993) trabalha agora com outra matéria: a fragilidade. Chris ainda pode assustar, manipular e fazer rir, mas cada uma dessas armas parece pertencer a um homem que começa a perceber que nenhuma delas serve contra a morte.
Wild Horse Nine transforma essa descoberta numa comédia negra sobre o peso de continuar vivo. Depois de uma carreira inteira a interpretar homens capazes de entrar na cabeça dos outros, John Malkovich recebe de Martin McDonagh uma personagem obrigada, finalmente, a entrar na sua própria — e a descobrir quantos mortos vivem lá dentro.
Embora o filme tenha o hino da latinidade “Gracias a la vida, que me ha dado tanto” e uma canção dos Stones, a que melhor se relaciona com aquilo que vemos é um êxito brasileiro dos Biquini Cavadão com estes versos dolorosos: “Tudo o que morre / fica vivo na lembrança / e é tão difícil viver carregando / um cemitério na cabeça”. Esse é o Chris de Malkovich neste poema triste, mas lindo, de um cineasta em plena depuração, que parece ter refeito o seu inaugural In Bruges (2008), agora no Chile.



















