Pablo Larraín, Mike Leigh e Nicole Garcia reforçam a competição de San Sebastián

O festival anunciou mais sete filmes para a corrida à Concha de Ouro, incluindo novos trabalhos de Maha Harada, Hans Petter Moland, Benjamín Naishtat e Yeşim Ustaoğlu.

Entre os anúncios do TIFF e de Veneza, o Festival Internacional de San Sebastián (Donostia) responde à altura, revelando a sua ementa competitiva de 2026, numa demonstração de que ambiciona ser uma montra de luxo para os autores do planisfério cinéfilo. A programação da 74.ª edição, que decorrerá entre 18 e 26 de setembro, recebe mais sete títulos que disputarão a Concha de Ouro. As novas confirmações reforçam uma competição já particularmente sólida, reunindo cineastas distinguidos nos principais festivais internacionais e uma estreia na realização que gera fortes expectativas. A este novo lote pertencem os mais recentes trabalhos da francesa Nicole Garcia, da japonesa Maha Harada, do britânico Mike Leigh, do norueguês Hans Petter Moland, do argentino Benjamín Naishtat, da turca Yeşim Ustaoğlu e do chileno Pablo Larraín. Estes filmes juntam-se aos nove títulos anteriormente anunciados para a Secção Oficial, entre os quais figuram também as produções espanholas El mal padre, de Roberto Bueso, Sants, de Mikel Gurrea, e 5 minutos más, de Javier Ruiz Caldera.

7:40 Ce Matin-là foi realizado por Nicole Garcia

A seleção evidencia, uma vez mais, o equilíbrio que San Sebastián procura entre autores consagrados e novos olhares, cruzando cinematografias europeias, asiáticas e latino-americanas numa competição em que coexistem diferentes linguagens, géneros e sensibilidades. Entre os regressos mais aguardados encontra-se Nicole Garcia, que apresenta 7:40 ce matin-là / Milo, protagonizado por Marion Cotillard e Théodore Pellerin. A realizadora francesa constrói um drama intimista sobre culpa, identidade e reconciliação, acompanhando Alice, uma mulher que, depois de sair da prisão, se instala numa pequena cidade e aceita um emprego num café para se aproximar de um jovem mecânico ligado ao seu passado. À medida que antigas feridas regressam à superfície, o filme interroga a possibilidade de reconstruir laços que pareciam definitivamente quebrados.

Outra das novidades é Muyou no Hito / In My Father’s Room, primeira longa-metragem realizada pela escritora japonesa Maha Harada, conhecida internacionalmente pelos seus romances inspirados no universo da arte. Adaptando um dos seus próprios livros, Harada acompanha uma funcionária de um museu que, após a morte do pai, descobre uma chave misteriosa capaz de abrir uma divisão desconhecida da antiga casa da família. A partir desse momento, inicia uma viagem emocional que revela a solidão, a sensibilidade e a riqueza espiritual de um homem aparentemente esquecido pelo mundo.

Tender Love Caring, de Mike Leigh Crédito: © Joseph Lynn/ Thin Man Films Ltd

Depois de ter regressado em força ao cinema com Hard Truths, exibido na Competição Oficial do festival no ano passado, Mike Leigh volta imediatamente à corrida pela Concha de Ouro com Tender Loving Care. O realizador britânico, vencedor da Palma de Ouro por Secrets & Lies e nomeado várias vezes para os Óscares, mantém o olhar profundamente humanista que caracteriza toda a sua obra, explorando as fragilidades das relações familiares e sociais através de personagens comuns confrontadas com os desafios do presente.

Também regressa à competição Hans Petter Moland, cineasta norueguês cuja carreira passou por festivais como Berlim e o próprio San Sebastián. Em Markens Grøde / Growth of the Soil, adapta o romance homónimo de Knut Hamsun, Prémio Nobel da Literatura, acompanhando a vida de Isak, um homem que decide construir uma existência numa terra praticamente inabitada no norte da Noruega. Ao longo de décadas, a luta pela sobrevivência mistura-se com uma reflexão sobre o progresso, a família, o desejo e a transformação inevitável das pessoas e das comunidades.

A representação latino-americana ganha novo peso com Benjamín Naishtat, um velho conhecido do certame basco. Depois de conquistar a Concha de Prata de Melhor Realização com Rojo e de regressar ao festival com Puan, o realizador argentino apresenta agora Glaxo, adaptação do romance de Hernán Ronsino. Ambientado na cidade de Chivilcoy, em 1957, o filme acompanha a chegada de um antigo comissário da polícia e da sua enigmática esposa, um acontecimento que rompe a amizade entre quatro jovens. Décadas depois, o passado regressa para confrontar todos com sentimentos de culpa, violência e desejo de vingança, num retrato da memória argentina marcado pelas feridas da História.

What Remains

Outra autora com uma longa ligação ao festival é Yeşim Ustaoğlu, vencedora da Concha de Ouro, em 2008, com Pandora’s Box. A cineasta turca regressa com Artakalan / What Remains, centrado numa poetisa que decide romper com a rotina sufocante da sua existência para reencontrar a própria voz. Ao questionar os modelos tradicionais de família e os papéis que lhe foram impostos, a protagonista embarca numa profunda viagem interior, num filme que promete manter a delicadeza e o rigor formal que caracterizam a obra da realizadora.

O último anúncio desta vaga pertence a um dos nomes mais prestigiados do cinema latino-americano contemporâneo. Pablo Larraín regressa a San Sebastián com Mis muertos tristes / My Sad Dead, adaptação de quatro contos da escritora argentina Mariana Enriquez. Concebido originalmente como uma série, o projeto será apresentado no festival numa montagem em formato de longa-metragem, integrando plenamente a competição pela Concha de Ouro.

Interpretado por Mercedes Morán, Dolores Fonzi e Carolina Álvarez, Mis muertos tristes acompanha Ema, uma mulher dotada da capacidade de ver e ouvir os mortos. A chegada inesperada da sobrinha Julie, que partilha o mesmo dom, desencadeia o ressurgimento de antigos segredos familiares e de traumas nunca ultrapassados. À medida que as presenças sobrenaturais se tornam cada vez mais intensas, todo o bairro passa a ser afetado por uma inquietante convivência entre vivos e mortos.

A escolha desta obra confirma a crescente aproximação entre o cinema e os formatos seriados nos grandes festivais internacionais, mas também reforça a presença de Larraín em San Sebastián, onde já apresentou títulos como Tony Manero, Post Mortem, El Club, No, Neruda, Ema e Spencer. Inspirando-se no universo literário de Mariana Enriquez, o realizador chileno parece voltar a explorar temas que atravessam grande parte da sua filmografia — a memória, o trauma e os fantasmas individuais e coletivos —, agora filtrados pelo horror sobrenatural.

Com este anúncio, a Competição Oficial da 74.ª edição do Festival de San Sebastián aproxima-se da sua configuração definitiva e confirma uma seleção marcada pelo diálogo entre cineastas veteranos, autores em plena maturidade artística e novas vozes do cinema mundial, mantendo intacta a reputação do certame basco como um dos mais relevantes pontos de encontro do calendário cinematográfico europeu.

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