Exibido no DocLisboa nos dias 17 e 18, La Memoria de las Mariposas ganhou notoriedade por via alemã, ao sair da Berlinale com o Prémio da Crítica (atribuído pela FIPRESCI, Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica) e com uma menção honrosa do júri oficial do certame de não ficção. Passa agora pela Mostra de São Paulo, onde faz a sua estreia esta terça-feira, numa sessão na Cinemateca Brasileira. Numa alquimia de inquietações, a produtora Isabel Madueño Medina e a realizadora Tatiana Fuentes Sadowski recorrem ao substantivo “constância” para traduzir o requisito de quem sonha viver profissionalmente do cinema na sua pátria: o Peru. Só com empenho constante — na busca de apoios e de fontes de materiais iconográficos ou audiovisuais pelo mundo fora — conseguiram tirar a longa-metragem (uma das mais comentadas da história recente do seu país) do papel.
“Ainda sofremos com a demora dos fundos e lidamos com um Estado que pretende censurar temas para evitar assuntos espinhosos,” explica Isabel Madueño Medina, responsável pela produção.
Na sua 75.ª edição, a Berlinale reconheceu o esforço da dupla, acolhendo este experimento documental como um dos achados do Fórum, espaço onde nascem filmes “inclassificáveis” na fricção sinestésica de texturas e sons. A expressão estética da dupla carrega uma bandeira política — no modo de trabalhar registos em Super-8 — ao abordar a violência histórica contra os povos indígenas peruanos. Pode dizer-se que todo o continente latino se espelha na forma como Tatiana processa símbolos ligados à extração da borracha na América do Sul.

“Os fantasmas que povoam o filme não são marcas da borracha, mas sim das elites que nos exploraram,” disse Tatiana ao C7nema. “Algumas instituições cederam-nos os seus acervos de memória para a construção da narrativa, que queremos levar às populações que integram o circuito de exploração que mostramos.”
Conhecida por La Huella (2012), Tatiana teve a atenção capturada por uma fotografia antiga de dois homens indígenas levados a Londres para serem “civilizados” por volta da viragem para o século XX. Os seus nomes eram conhecidos — Omarino e Aredomi —, mas pouco ou quase nada se sabia sobre eles. Por isso, Tatiana sentiu-se compelida a aprofundar o passado da dupla — e da sua pátria. Em La Memoria de las Mariposas, desconstrói a história oficial do comércio extrativista e colonial da borracha no final do século XIX e início do século XX.
“Uma fotografia é um arquivo e todo arquivo é uma porta aberta para uma investigação que não precisa de objetividade, mas que se comporta como evidência,” diz Tatiana, que rodou a longa com um orçamento estimado em 180 mil dólares. “Todo arquivo é um espectro.”
Ela partilha os seus achados sobre Omarino e Aredomi com os descendentes e filma as respetivas intervenções. O êxito de La Memoria de las Mariposas em festivais europeus — que atraiu a curadoria brasileira da Mostra — confirma a força do documentário peruano no planisfério cinéfilo. “O cinema da América Latina vive quando gera debate,” afirma Isabel.
A Mostra de São Paulo, que decorre até 30 de outubro, exibe o filme de Tatiana com o título A Memória das Borboletas em mais duas sessões: uma esta quarta-feira, no Espaço Petrobras, e outra no domingo, no Cine Satyros Bijou.

