Idealizado como um filme de verão, para capturar os suores de uma Nova Iorque no meio do ano, “Babygirl” só pôde ser rodado em dezembro de 2023, no frio, à força dos atrasos provocados por um par de greves sindicais (de argumentistas e de atores) no cronograma do cinema indie. O adiamento fez de dele um “filme de Natal”. As aspas são da sua realizadora, a atriz holandesa Halina Reijn, que usou os escritórios da produtora A24, nos EUA, entre as locações de uma trama regada a sexo que engloba a temporada de festas pré-réveillon, mas que se foca no desejo.
“Venho do teatro, o que justifica eu trazer Ibsen e Eugene O’Neill para uma narrativa de tom existencialista que parece contemporânea, mas carrega muito da tradição moderna nos seus takes longos a partir da provocação de que olhar é sexy”, disse Hajina ao C7, numa entrevista via Zoom promovida pela Golden Globe Foundation, ao lado da sua estrela, Nicole Kidman.
A atriz australiana saiu do Festival de Veneza, em setembro, com o troféu Copa Volpi de Melhor Interpretação pelo seu desempenho na película, que lhe valeu ainda uma nomeação aos Globos de Ouro. É a sua atuação mais elogiada desde “As Horas” (2002), pela qual foi oscarizada.
“Depois de anos de carreira, percebi que fiz filmes sobre sexo no passado, mas nunca realizados por uma mulher. Por ter uma realizadora por trás das câmaras, sentia-me mais segura”, explica a estrela que, em 2017, conquistou o Prix du 70ème Festival de Cannes pelo conjunto da sua filmografia, quando foi dirigida por Sofia Coppola em “The Beguiled”. “O que encontro em ‘Babygirl’ é uma mulher que sofre uma crise depois de ter conseguido tudo o que queria. Tem filhos, desfruta de um apartamento confortável em Nova Iorque e goza de um posto de comando. Nada disso, contudo, atenua a sua inquietude, que irrompe quando ela é tomada pelo desejo”.

Iluminada sob uma luz cálida pelo diretor de fotografia Jasper Wolf, Nicole implode em cena, numa composição tão radical quanto a de “Dogville” (2003), ao expor o calvário sentimental da CEO Romy Mathis, decorrente de um romance que passa a ter com um estagiário mais jovem, Samuel (Harris Dickinson, de “Triângulo da Tristeza”). Ele encontra-se com ela pelas ruas, e fica incomodada com sua empáfia, antes de saber que é a sua chefe. Até ali, a sua rotina trilha a estrada do êxito, no casamento com o encenador teatral Jacob (Antonio Banderas) e na linha de frente da empresa da qual é executiva. “Ela é alguém que mantém firme entre os punhos tudo o que tem na mão, até começar a ser o que realmente quer, a partir da experiência do prazer”, diz Nicole.
Do primeiro beijo ao primeiro encontro sexual, tudo entre Romy e Samuel passa a seguir a rota do descontrole – da parte dela. O rapaz desarranja as suas certezas e expõe fragilidades. “Estruturei o filme a partir da dualidade que havia nos thrillers eróticos dos anos 1990”, diz Hajina, em referência ao “Basic Instinct” (1992), de Paul Verhoeven, de quem é fã, além de títulos de Adrian Lyne, incluindo na lista “A Professora de Piano” (2001), de Michael Haneke. “Naquele momento desse filão do erotismo, alguém sempre era punido por desejar, e, sempre, a punição era imposta a uma mulher. Queria retrabalhar isso, mas queria, antes de tudo, atrair as plateias a partir de um código audiovisual conhecido, a fim de expor o quanto todos somos atraídos pelo nosso lado mais sombrio”.
Formada pelos palcos com recorrentes montagens da peça ibseniana “Hedda Gabler” (1890), Halina talhou uma linha autoral como cineasta calcada no trato de sentimentos reprimidos e de fantasmas forjados pelas interdições sociais. “Instinct” (2019) fez dela uma cineasta, num desafio ao politicamente correto, ao retratar uma psicóloga carcerária que enreda um preso acusado de agressão sexual.
Em plena pandemia, ela desafiou tabus de novo ao enveredar pelo terror, e mesclá-lo ao humor, no thriller “Bodies Bodies Bodies”, de 2022. “Esse filme deixou-me obcecada por jovens, pois senti-me um dinossauro perto deles e aprendi o quanto é curiosa a mirada que têm sobre a sexualidade. A figura do Samuel nasceu dali”, diz Hajina, cujo foco artístico se deposita sobre personagens em situações afetivas nas quais toda a solidez das suas vidas pode ruir. “Tento correr riscos ao desafiar espaços de medo, de vergonha”.






