Exibido na última Semana da Crítica em Cannes — de onde saiu com o prémio de Revelação, atribuído a Théodore Pellerin — Nino é a primeira longa-metragem de Pauline Loquès, uma jovem cineasta que, depois de estudar literatura e direito, se virou para o jornalismo para saciar a sua vontade de escrever. “Nasci em Cannes. Cresci na região”, contou-nos durante o festival de 2025, considerando esse “o lugar ideal para mostrar uma história tão universal como a doença”.
Em Nino, somos levados a Paris, onde o jovem homónimo descobre, num exame de rotina, que tem cancro. O que se segue é um retrato íntimo dos dias entre o diagnóstico e o início do tratamento, em que tenta assimilar a notícia e encontrar forma de a partilhar com aqueles que lhe são próximos.
Influenciada por uma outra obra marcante que passou por Cannes há cerca de 15 anos, La guerre est déclarée, esta jovem cineasta que admira Joachim Trier e Richard Linklater pela forma como trabalham o tempo e as personagens, constrói aqui uma estreia de grande sensibilidade, demonstrando que é possível fazer cinema com poucos meios, mas com energia, precisão e coração.

Qual foi a origem deste impulso para filmar?
Partiu de uma história pessoal, sim. Perdi alguém na minha família, um jovem com cerca de trinta anos, devido a um cancro. Eu estava tão triste, tão zangada, que comecei a escrever. Primeiro para reencontrar a alegria, a esperança, quase como uma terapia.
E depois, a certa altura, percebi que aquilo estava a ganhar a forma de um filme — um jovem doente com um diagnóstico de cancro.
Tive vontade de explorar o que se passava na cabeça dele e também de fazer um filme luminoso, com uma trajetória virada para a vida e não para a morte.
Há um momento em que o Nino não conta à mãe que está doente. Por quê essa escolha?
Acho que o primeiro reflexo dele é ir ter com a mãe. Ele pensa: “é a ela que vou contar”. E depois surpreende-se por não conseguir. Pensa que vai ser fácil, porque uma mãe pode compreender tudo. Mas quando a vê à sua frente, percebe que é demasiado assustador, demasiado grande o que tem para dizer, e desiste.
Não tinha antecipado que iria desistir. Acho que é algo que o surpreende. Imaginamos que lhe vai contar mais tarde, mas naquele momento não consegue.
O diagnóstico e o início do tratamento acontecem muito rapidamente. Foi uma escolha?
Sim, é muito rápido. Era essa a sensação que queria. Existe o problema e a solução ao mesmo tempo: há o cancro, mas dizem-lhe logo que existe tratamento.
Então ele teria de estar triste e feliz ao mesmo tempo. Feliz por poder ser tratado.
Gostava dessa urgência, mas não uma urgência de morte. Antes uma urgência de “vais viver, mas vais ter de fazer quimioterapia, radioterapia e tudo isso”.
Esses três dias permitem depois aquele fim de semana em que ele está sozinho, a fazer perguntas a si próprio.
Permitiu-me ter dois momentos muito fortes e, no meio, ir buscar o cotidiano, o banal, a vida que continua, porque na verdade nada mudou. Ele só disse que tem cancro — não está mais doente duas horas depois do que estava duas horas antes.
É essa ideia: como é que a vida continua quando tudo mudou.
Não há propriamente aquele “momento de negação” típico neste tipo de histórias.
Sim, não quis usar palavras como negação ou choque. São sentimentos misturados, “mix feelings”, que mudam ao longo do dia.

Falou com outras pessoas que passaram por situações similares?
Sim. Quando começamos a falar sobre o tema, percebemos que acontece em muitas famílias. Informei-me muito sobre como a notícia é dada, como os médicos anunciam isso, e sobre o ponto de vista dos pacientes.
Disseram-me que é o momento que mais se recorda: aquele frente-a-frente com o médico, que muitas vezes é um desconhecido que entra na tua vida de forma muito íntima.
Também falaram sobre a forma como a perspectiva muda de repente. Beber um café com alguém passa a ser algo maravilhoso, quando antes era banal.
Tentei integrar isso, mesmo sem haver uma grande revelação. Sente-se que o olhar dele muda.
Há também a personagem da enfermeira, que pensa que ele já falou com o médico.
Sim, claro. Também quis mostrar isso. Nos hospitais, sobretudo em Paris, há pouco dinheiro, poucos meios, muita gente.
Há falhas humanas. Espero que se compreenda essa personagem e que haja empatia por ela. É a realidade.
Quando escreveu o argumento, pensou em algum ator?
Não pensei em ninguém. Estava tão focada na personagem que não queria imaginar um rosto existente.
Só depois, quando o argumento ficou pronto, começámos a pensar. Foi a directora de casting que sugeriu o Théodore — eu não o conhecia.
Houve uma evidência: aquele corpo forte, presente, quase majestoso, e ao mesmo tempo alguém travado por dentro, com grande vulnerabilidade, sensibilidade e gentileza.
Foi evidente para mim.
Qual foi o maior desafio que encontrou?
Fazer um primeiro filme. E sendo uma história pessoal, manter alguma distância. Mas, ao mesmo tempo, isso salvou-me, pois ocupou completamente o meu pensamento.
Tornou-se quase uma obsessão: como salvá-lo, como levá-lo para a luz. Foi a minha bóia.
Depois, o desafio foi manter distância em certas cenas emocionais. As cenas de hospital foram difíceis. Sentia que a ficção era quase indecente. Estamos a fingir estar num hospital, mas há pessoas realmente doentes à nossa volta.
Houve momentos em que pensei: porque estamos a fazer isto? Porque estamos a fabricar algo falso?
A morte desse familiar mudou a sua relação com a vida?
Acho que despertou mais a questão da vida. Pode parecer cliché, mas se queres fazer algo, faz. Não sabemos o que vai acontecer amanhã.
Deu-me tristeza, mas também força. E a sensação de que nada do que vivo hoje é realmente grave.
O ambiente no set foi muito positivo, cheio de amor, respeito e alegria.
O que procura no seu próximo filme?
Não sei. Espero pela história.
Para mim, é a necessidade que faz o filme. Este levou cinco anos — é preciso querer viver com a história durante esse tempo.
Tem de haver sentido suficiente para justificar esse compromisso.
Tem novos projetos?
Ainda não. Quero que o filme saia primeiro em França, depois volto a escrever. Tenho ideias, algumas com o Théodore, mas ainda não sei.






