“Vejo ‘Io Capitano’ como uma mistura de ‘Gomorra’ com ‘Pinóquio'”, define Matteo Garrone

(Fotos: Divulgação)

Abrir a programação do 17° Festival de Küstendorf no dia em que recebeu a nomeação ao Oscar de Melhor Filme Internacional, confiada ao seu “Io Capitano” (Eu Capitão), foi uma missão que exigiu de Matteo Garrone concentração e calma. Cada pergunta dos jornalistas internacionais que recebia, na sua passagem pela maratona audiovisual sérvia, era cortada por uma chamada telefónica de Hollywood, ou então da sua Itália natal.

No palco da sala de cinema onde o evento eslavo decorreu, o curador e organizador das mostras, o mítico cineasta Emir Kusturica, ressalvou a determinação do realizador italiano.

Lembro-me de me ter cruzado com Garrone, quando ele começou a carreira no cinema, em festivais, e notar a admiração dele e desejo de filmar”, lembrou Kusturica, ao acolher Garrone, que recebeu o Leão de Prata de Veneza (de melhor realização) por “Eu Capitão”.

No Lido, a longa-metragem recebeu ainda o troféu Marcello Mastroianni de Revelação (dado a Seydou Farr) e mais dez prémios de júris paralelos. Farr vive um adolescente senegalês de 16 anos que se junta ao primo da mesma idade, Moussa (Moustapha Fall), numa jornada de Dakar para a Sicília, em busca de uma vida melhor. Passa por toda a sorte de percalços para isso, encarando um deserto escaldante, tropas armadas e barcos lotados. É uma narrativa tensa, mas comovente.

Matteo Garrone

Na entrevista a seguir, dada ao C7nema em Küstendorf, Garrone faz um balanço do seu mais recente sucesso.

O que esperar do Oscar?
O nosso desafio agora é fazer o filme ser visto pelos votantes. Sei que o filme de Inglaterra (“Zona de Interesse”) é encarado como a aposta número um e respeito isso, pois conheço e gosto muito do seu realizador (Jonathan Glazer). Mas precisamos do esforço dos distribuidores para que o nosso filme seja descoberto, seja falado. Esta fase da nomeação aos Oscars é como um processo eleitoral político. Precisas correr atrás dos votos.

Como se encontra a medida precisa entre a fábula e o realismo num filme como “Io Capitano”, numa obra que vai de “Gomorra” a “Pinóquio”?
Sempre vi “Gomorra” como um conto de fadas sombrio. É um filme sobre jovens assombrados por forças violentas. Já o “Pinóquio” da literatura, no olhar de Colodi, é um ser que encara toda a sorte de situações assustadores numa trama sobre os perigos inerentes às escolhas que fazemos. De certa forma, “Io Capitano” é uma mistura desses dois filmes. É uma trama sobre jovens em fase de aprendizagem. O único cuidado que sempre tive, ao falar de imigrantes, era não parecer o “privilegiado de classe média que vai até a África falar das misérias daquele continente para poder ganhar o Oscar”. Era tudo o que queria evitar. Para isso, construímos a dramaturgia de forma a dar aos meninos o ponto de vista condutor. Os atores eram participativos e colaborativos nas escolhas que a gente fazia. O filme é deles também. Têm o olhar deles.

Mas que elementos do drama real dos imigrantes estão no filme?
Existe um dado concreto: cerca de 22 mil pessoas morreram nesse tráfego migratório para Itália. A realidade é sempre mais assustadora do que a ficção. Por isso, ela está lá, mas tenho a magia no filme também. É um estudo sobre uma narrativa heroica. Existe um herói que faz o filme ser universal.  

Qual é o simbolismo de estar num festival presidido por Emir Kusturica?
Por vezes, sinto como se lhe devesse algo, pois Emir é um dos cineastas que me formaram como cinéfilo. Eu sou um pintor que se interessou pelo cinema pelo desejo de contar histórias de forte apelo visual. Realizadores como ele inspiraram essa vontade em mim. Küstendorf é um festival de tom mais humanizado.

Ser selecionado por um evento sob a curadoria de Kusturica faz de você um autor? De que medida a autoralidade na sua obra é consciente?
Não penso nela, não penso nessa dimensão de autor, penso apenas na criação. O que me instiga é conseguir surpreender a plateia e me surpreender no processo de construção de cada filme.

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