O terror no reino da fantasia: arranca hoje (07/09) o Motelx

O festival de cinema de terror decorre entre 07 e 14 de setembro e este ano realiza-se inteiramente no cinema São Jorge.

(Fotos: Divulgação)

Num ano mais do que atípico, o único festival de cinema lisboeta inteiramente dedicado ao terror está de volta e reflete, ele próprio, sobre questões mais do que pertinentes.

Dividido em dez seções (sete de longas-metragens e três de curtas), o MOTELx abre com a antestreia nacional do sempre estimulante cinema espanhol com “3º Andar – Terror na Rua Malasaña”, uma história de assombrações caseiras passadas em Madrid nos anos 70. O bem-sucedido, mesmo em tempos de pandemia, “The Rental”, encerra o Motelx com um enredo passado num final de semana onde quatro amigos são assediados por segredos e um assassino.

Talvez o cinema de terror tenha sido sempre dos géneros mais aptos a captar as angústias do seu tempo. Nesta altura, onde a própria apresentação do Motelx fala numa conjuntura que “parece saída de um filme de género”, questiona-se como esse tipo de fantasia dialoga com uma realidade atípica.

Terrores Reais e Imaginários

Se por um lado existia uma certa presciência neste tipo de filmes em relação ao presente”, observa João Monteiro, um dos diretores do festival, “neste momento quase todos os filmes têm confinamentos, uso de máscaras e problemas ambientais”. Dentro da programação do MOTELX, Monteiro aponta algumas das obras conectadas com os tempos. “Isso é particularmente notório nos filmes europeus, como no italiano “Darkness”, que começa com uma família em quarentena em casa, e se prolonga por filmes que acertam o passo com a realidade como o britânico “Host”, todo filmado em ‘zoom’”.

Um caso mais particular é o do impressionante “Epidemia”, segundo filme de Lars von Triers que também terá exibição no certame, e que Monteiro designa como uma contribuição “consciente” dos programadores no sentido de conectar-se com os tempos da pandemia. “O filme relaciona-se exatamente com esse diálogo entre a realidade e a ficção e que este ano faz mais sentido do que quando foi produzido há mais de 30 anos”, analisa.

Pesadelo Americano: O Racismo e o Medo do Outro

Nós não vemos nenhum sonho americano, o que temos vivenciado é um pesadelo americano”. A frase de Malcom X, um dos líderes da luta racial dos anos 60, serve de inspiração para o festival nomear a sua seção dedica ao assunto. Serão sete obras que em algum momento tropeçaram no tema que tem ganho cada vez mais relevância com os acontecimentos ocorridos nos Estados Unidos nos últimos meses.

Conforme avalia Monteiro, “o mais desconcertante nestes filmes, todos já com alguma idade excetuando ‘Get Out’, é a forma como refletem a presente realidade, ou seja, dando claramente a entender que pouco ou nada mudou. O mais impressionante deles todos é o mais antigo: The Intruder’, de 1962, que parece ser um vídeo tutorial sobre a ascensão do populismo a um nível que podemos identificar até em Portugal”.

De resto, o codiretor do Motelx destaca filmes como “White Dog”, que questiona as raízes do racismo e se este pode ser curado, o apagamento de uma identidade cultural em “Ganja & Hess”, a vida nos guetos em “People Under the Stairs” ou “Candyman” e a relação entre a polícia e o cidadão afro-americano na primeira história da antologia “Tales from the Hood”, feito no seguimento do motins em Los Angeles depois do caso Rodney King.

Destaques

Para além da programação anglo-saxónica, com destaque para filmes como “Antebellum”, a aguardada obra dos produtores de Jordan Peele, o australiano “Relic” e o britânico “Host”, chegam trabalhos de todo o mundo – como da Ásia (seis filmes japoneses, entre os quais o último de Takashi Miike, “First Love”) e da América Latina  “La Llorona”, de Jayro Bustamante, o brasileiro “Macabro”, de Marcos Prado, entre outros).

Já o cinema europeu é o centro da Competição Internacional, onde perfilam-se sete obras vindas do Reino Unido (“Amulet”), Itália (“Darkness”), Ucrânia (“Stranger”), Alemanha (“Pelican Blood”), Rússia (“Sputnik”), França (“Hunted”) e Espanha (“Adventures of Travelling by Train”).

A seção Quarto Perdido, dedicada a realizadores portugueses, traz nesta edição filmes de Pedro Costa e uma conversa com o cineasta, enquanto três seções de curtas-metragens trazem a produção internacional, projetos experimentais experimentais e a tradicional Competição de Curtas Nacionais – da qual deriva uma premiação.

A programação completa pode ser encontrada em www.motelx.org

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