Veneza: “se o cinema nunca esteve tão ausente, também nunca esteve tão presente”

(Fotos: Divulgação)

Um dos momentos marcantes da cerimónia de abertura do Festival de Veneza foi a subida a palco de vários diretores de festivais internacionais de cinema, todos signatários de um discurso que foi lido em palco e que exaltou a importância do cinema nos tempos de pandemia, dos festivais e a necessidade urgente de proteção das salas de exibição.

Aqui deixamos na integra o discurso:

Somos oito diretores de festivais europeus, representando simbolicamente a comunidade de festivais de todo o mundo, que foram convidados a subir ao palco na Cerimónia de Abertura do 77º Festival Internacional de Cinema de Veneza em solidariedade com a indústria cinematográfica internacional, que foi severamente afetada pelo pandemia, e também com nossos próprios colegas, que ficaram sem outra opção a não ser cancelar ou adiar os seus festivais. Todos estes diretores partilham connosco esta maravilhosa profissão de mostrar filmes como forma de acompanhar as obras, os artistas e os produtores, explicar os resultados dos seus trabalhos ao público e à crítica, e reafirmar a cada dia a importância da arte cinematográfica.

É este ano excepcional, esta crise, esta reconsideração de tantas coisas, que nos traz aqui hoje, bem como a nossa vontade comum em nos manifestarmos para reafirmar o valor que atribuímos ao cinema. Pode parecer um dado adquirido, mas às vezes é importante reafirmar o óbvio.

Há 125 anos, Louis Lumière inventou o cinematógrafo e abriu as primeiras salas de cinema em Paris, Lyon e outras cidades ao redor do mundo. Também mandou um operador de câmara para a cidade de Veneza, no mesmo ano – 1895 – em que foi fundada a Bienal de Veneza. Depois de todos esses anos, e ao longo do século XX, o cinema triunfou em todos os lugares; os cinemas transformaram-se em lugares de magia e os festivais de cinema nos eventos mais incríveis do mundo.

Mas algo extraordinário e inimaginável aconteceu este ano. Pela primeira vez, o que aconteceu em 2020 foi algo que nem mesmo as duas guerras mundiais conseguiram fazer: cinemas fechados, filmagens paradas, e muitos festivais obrigados a cancelar a edição deste ano. Os cinéfilos foram impedidos de perseguir a sua paixão. Sofremos com a ausência do cinema, a falta de novos filmes. Não tivemos a oportunidade de falar, discutir e argumentar sobre eles. Foi tudo muito triste. Porém, também percebemos algo importante: se o cinema nunca esteve tão ausente, também nunca esteve tão presente. Estava lá nos nossos corações, é claro, mas também em todas as nossas tecnologias domésticas, assim como nas histórias contadas nas nossas famílias. O cinema estava vivo nas nossas memórias. Estava bem ali na emoção e na alegria que nos deu no passado. Como os livros e a música, o cinema fez parte da história deste vírus e do confinamento a que fomos forçados.

Privados temporariamente do que temos de mais caro, tomamos consciência do seu valor. Hoje, os cinemas voltam a abrir as suas portas, como os festivais, com incerteza e ansiedade. Mas também o fazem com esperança e convicção, porque sabem que agora, mais do que nunca, ninguém vive sem o cinema. Ninguém pode viver sem os filmes vistos no cinema, no grande ecrã, com público, com toda a conversa e o silêncio. Desejamos repetir com firmeza esta noite: devemos cuidar das nossas salas de cinema. E todos juntos, eles e nós, as salas e os festivais, nos comprometemos a cuidar dos filmes, dos artistas, dos profissionais, da crítica, de todos aqueles que fazem o cinema existir.

As pessoas reunidas neste palco esta noite estão aqui para representar muitos festivais, como Berlim, San Sebastián, Locarno, Karlovy Vary e Roterdão, mas também os festivais de exibição de clássicos do cinema, como Bolonha e Lyon. Os nossos pensamentos estão com os nossos amigos e colegas em Londres, Busan, Nova York, Telluride, Toronto, Melbourne, Tóquio, Mumbai, Mar del Plata, Morelia, Pingyao e muitos outros que não puderam estar aqui connosco esta noite. Hoje é a noite de abertura do Festival de Cinema de Veneza, e esta noite também marca o regresso do cinema em todos os lugares: Europa, Ásia e, em poucos dias, América também.

Chegou o momento de reafirmar o papel e a importância dos festivais no apoio e promoção do cinema de todo o mundo e, em particular, do cinema europeu. Os festivais não são apenas vitrinas promocionais que destacam o melhor da criatividade de autores e cineastas. São cada vez mais centros de cultura, locais de formação de jovens realizadores, escritores e produtores que encontram neles oportunidades de desenvolvimento e conhecimento, assim como de apoio profissional e financeiro. Os festivais também oferecem ao público uma oportunidade de crescimento cultural e às gerações mais jovens a hipótese de se educarem sobre a beleza e a plenitude da experiência cinematográfica. São locais de pesquisa e debate onde a liberdade de criatividade e expressão artística ganha vida numa conversa vitalmente frutífera com o público e a sociedade em geral. Por tudo isso, os festivais representam uma forma ímpar de apoio à indústria cultural, principalmente à produção audiovisual.

Nestes meses, todos pensamos no lugar que o cinema ocupa nas nossas vidas. É fácil ver agora e sempre será assim: para nós, a vida no passado era cinema; a vida no futuro ainda será cinema. Ajudem-nos a manter o nosso compromisso vivo.”

Alberto Barbera -Venice International Film Festival
Carlo Chatrian – Berlin International Film Festival
Thierry Frémaux – Cannes Film Festival
Lili Hinstin – Locarno Film Festival
Vanja Kaludjerčić – International Rotterdam Film Festival
Karel Och – International Film Festival Karlovy Vary
José Luis Rebordinos – San Sebastián International Film Festival
Tricia Tuttle – BFI London Film Festival



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