Cannes: destaque às mulheres na Un Certain Regard

Serão oito as mulheres que lutarão pelo prémio máximo da Un Certain Regard, secção do Festival de Cannes que abriu hoje sob o signo feminino.

(Fotos: Divulgação)

Duas obras exibidas hoje vieram demonstrar a variedade do olhar … diríamos de um “certo olhar”… de forma a dar uso ao título deste espaço no cinema contemporâneo. Começaremos com o ínicio, a abertura que contou com Thierry Frémaux como chefe de cerimónia perante um público misto entre celebridades e jornalistas atentos. O filme que abriu o certame é também candidato à Câmara de Ouro [prémio de primeira obra], La Femme de Mon Frère, da canadiana Monia Chokri.

O enredo de maturidades tardias, um dos grandes sintomas da sociedade ocidental e ultracapitalista, traduzida no distanciamento entre dois “inseparáveis” e desamparados irmãos do Quebec, resulta num filme desconjurado que segue uma tradição de comédia ácida política à lá Denys Arcand (as cenas de convívio são propícias disso) e das fantasias materializadas que encontraram espaço em Amores Imaginários de Xavier Dolan (para restringirmos a território canadiano).

É uma obra de uma certa estética e de um humor astuto, mas nem tudo são maravilhas. Existe aqui a sua queda em miserabilismos de primeiro mundo, respirando os ventos vindos do sul, onde as personagens parecem ser desenhadas de forma a agradar os adeptos de um cinema norte-americano indie. O que nos vale é a protagonista Anne-Élizabeth Bossé que nos encaminha para boa companhia, mesmo que o filme se prolongue até à exaustão.

Bull

Poderia ser uma melhor abertura de uma seleção, que apesar da ousadia visual não vinga pela criatividade ou na urgência temática pelo que é conhecido a Un Certain Regard. Nesse sentido, Bull, da vizinha Annie Silvestein, faz melhor figura. A história remete-nos a uma amizade improvável de uma Houston rural, entre uma garota de 14 anos e um reformado peão de rodeo afroamericano. O percurso dramático é fácil, seguindo as pisadas de uma certa narrativa “oscarizada” (fica a provocação, tem algo de Green Book).

Mas a realizadora apresenta-se sóbria num registo handcam a repescar um olhar quase antropológico desta comunidade que cultua o touro e a sua majestosidade animal. O argumento é cuidado, nunca desperdiçando um pormenor que seja, ou uma eventual relação. É um sopro norte-americano que faz uso da sua narrativa para se expor como um retrato de uma América em busca da sua identidade, sem nunca vergar por facilidades morais (não entrem em pânico, o filme contorna os pecados do mencionado Green Book) nem demagogias políticas.

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