Arranca nesta quarta-feira (dia 8 de abril) a sexta edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, o qual volta a apresentar uma mostra delicada e culturalmente diversificada de filmes, cujo elo de ligação é a sua língua. Apostando cada vez mais em alargar a sua programação e tornar mais desafiante toda esta aventura cinematográfica, Adriana Niemeyer, diretora artística, falou com o C7nema, apresentando as mais recentes adições e destaques de um festival que soma e segue.
Diversificar uma mostra cinematográfica
A divulgação é uma das apostas do FESTin, não apenas referente à sua programação e à seleção de filmes, mas também da língua e da cinematografia rara e por vezes demasiado limitada de muitos países, nomeadamente os africanos afluentes do português. Adriana Niemeyer salientou as dificuldades que há em construir uma programação rica e diversificada, tarefa que nem sempre é das mais gratas, visto que os países abrangidos na CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) não possuem iguais níveis de produção: «A produção de filmes [nos países africanos] é muito curta, ou porque não existe ainda uma educação cinematográfica ou porque, por vezes, a produção local é muito pobre.». Face a isto, o Brasil é o país predominante nos filmes apresentados pelo FESTin: «70 ou 80% dos filmes são do Brasil, não conseguimos subir mais a quota nos outros países (…) em comparação com os países africanos».

Porta 21 é um dos exemplos nacionais na competição
Dentro da situação de escassez produtiva, encontramos também Portugal. Apesar das dificuldades em conseguir representar o dito panorama cinematográfico, visto que «temos festivais mais conhecidos que o nosso, nós acabamos obviamente de perder para eles, não digo os melhores, mas os realizadores conhecidos que estão há mais tempo integrados nesses festivais, o que é compreensível», revela Niemeyer, que ainda acrescenta que «a nossa inscrição também é perto de Cannes». A concorrência com os outros festivais faz com «a quota de filmes portugueses seja bastante reduzida, por isso apostamos mais no cinema de autor». Contudo, mesmo as regras são importantes na selecção dos filmes, como o « não seleccionar filmes que já passaram em Lisboa, assim, vários ficam automaticamente de fora. Não pedimos um filme inédito em Portugal, mas se o filme passou por salas em Lisboa, não tem como aceitar, é injusto para outros participantes.».
A homenagem a Timor-Leste, incentivando uma futura produção
Como é habitual todos os anos, o FESTin homenageia um país diferente da CPLP, cabendo a honra deste ano em Timor-Leste, um anfitrião que infelizmente não terá nenhum filme de sua produção representado na programação. Não por decisão da organização do FESTin, mas pelas dificuldades de produção cinematográfica do país, que vai desde o muito escasso até ao nulo. «Mas nem é por isso que podemos deixar de o homenagear» frisa Niemeyer, enquanto destaca o tributo programado ao país com os documentários Guerra e um Pouco de Paz, sobre o líder revolucionário José Ramos Horta, e Fraternuras, sobre questões identitárias e sociais de um país num documentário que «foi feito por uma portuguesa [Maria João Coutinho] que também vai comandar uma mesa sobre Timor“. Mesa, essa, “Timor, Janela Aberta”, que segundo a directora, «interrogará a dita lusofonia de Timor».

«Homenagear Timor é uma maneira de mostrar que estamos pendentes deles, que queremos que eles participem, e que nos ajudarão a dar a conhecer», explica Adriana Niemeyer, revelando de seguida que «inclusivé, nós fomos convidados para ir para Timor durante as comemorações dos 500 anos desde a chegada dos portugueses a Timor, que decorrerá à partida no dia 31 de outubro. Será uma semana festiva e o Festin foi convidado para ir às comemorações (…) o Instituto Camões juntamente com a Fundação Oriente vão-nos levar às comemorações». O intuito desta visita é muito mais abrangente do que se pode imaginar: «em Timor vamos tentar fazer oficinas de cinema (…) botar uma sementinha num lugar, quem sabe, daqui a uns anos poderá começar produzir eles mesmos alguma coisa.» Para além disso, «o cinema é uma maneira fácil de poder entrar com a língua portuguesa nas escolas, com os filmes infantis, com as pessoas, para que o português torne-se numa língua mais audível.»
Um espaço documental cada vez mais rigoroso
Dentro da programação, Adriana Niemeyer destaca a seleção de documentários e a sua já habitual maratona: «este ano, o que me surpreende é a qualidade», e deixa para o C7nema algumas recomendações, como «um excelente documentário moçambicano [Quitupo, Hoyé!, de Chico Carneiro e Rogério Manjante]” sobre a descoberta de uma reserva de gás natural na bacia do Rio Rovuma, e Yetu [realizado por Ulika Franco], todo um trabalho de pesquisa da música angolana, um trabalho perdido há anos, um documento de uma importância histórica. Ajuda a buscar pelas raízes dos países de Língua Portuguesa». Em relação a este panorama de documentários lusos, ainda referiu a difícil escolha que foi em optar pelos respetivos produtos cinematográficos.
Uma nova secção
Para além da competição de longas e curtas-metragens, o FESTin Social, que «é sempre uma marca do FESTin» e o Festinha, secção direcionada aos mais pequenos, o FESTin arrisca este em lançar FESTin +, «que é dedicada a pessoas da terceira idade. Uma secção dedicada a eles, assim como uma oficina dedicada e eles». Esta que é, segundo as palavras de Niemeyer, a «aposta mais arriscada (…) a tentativa do ano», tem como principal objetivo levar ao cinema um público «acostumado a ver televisão», e contrariar assim, o senso comum que a sociedade possui do sénior, porque ao contrário do que é constantemente referido, «hoje em dia uma pessoa de 65 anos é uma pessoa muito ativa». «Portugal é um país com um envelhecimento acentuado, acima dos 60 anos, mas que tem pouca oferta, em contra-partida tem muita coisa para crianças e tem poucas crianças». A razão para esta aposta é simples: «o Cinema não tem idade, tal como o Manoel de Oliveira, você pode fazer cinema a vida inteira».
A chegada de Cavi Borges
Cavi Borges, «o maior, mais jovem e mais arriscado produtor de cinema no Brasil», estará pela primeira vez presente no FESTin, não apenas para apresentar duas das suas obras mais recentes, Setenta, um revisitar a um dos mais marcantes episódios do Chile nos anos 70, e Um Filme Francês, sobre a produção de um filme guiado por influências da Nouvelle Vague, mas como uma confirmação de um selo de confiança entre o cineasta carioca com o festival. Segundo Adriana Niemeyer, a contribuição de Cavi Borges vem «desde que começou o FESTin», e que a sua presença está em praticamente tudo que o festival faz: «tudo tem o dedinho dele».
Paulo Coelho a fechar o FESTin

O filme de encerramento, Não Pare na Pista, de Daniel Augusto, somos remetidos a uma cinebiografia do célebre escritor brasileiro Paulo Coelho. «Depois de Shakespeare, é o autor mais traduzido do Mundo», explica Niemeyer, ao mesmo tempo que revela as razões da escolha do filme como última sessão do FESTin: «Goste-se ou não, Paulo Coelho não é indiferente para ninguém. Aliás, a vida de Paulo Coelho é capaz de ser mais interessante que os livros. O filme mostra a trajetória dele, que também pode ser considerado um exemplo de vida, já que levou com tantos nãos e mesmo assim continuou a lutar». Como veredito, «é um filme dinâmico e divertido sobre uma figura incompreendida.»

