Céu sobre a Berlinale: Fantasias Deprimentes

(Fotos: Divulgação)

Arranca nesta quinta-feira (05/02) e decorre até dia 15/02 um dos melhores festivais do mundo para aqueles que gostam de se aventurar por paragens distantes das fórmulas do cinema comercial – ainda que este marque presença fora de competição. Vindos de todos os cantos do planeta, passa pela Berlinale praticamente de tudo – do mais mediático ao mais alternativo, do exemplar hollywoodiano ao arthouse contemplativa. Como tradicionalmente, a cidade mobiliza um enorme leque de espaços para receber as multidões que enchem as salas para ver as centenas de filmes das suas principais seções competitivas (a Oficial, mais o Panorama, o Fórum e a Generations) e as antestreias fora de concurso. Wim Wenders, cuja obra-prima As Asas do Desejo inspira o título deste artigo, será homenageado com um prémio de carreira

Filme de Abertura: Mulheres apaixonadas (e geladas)

Cabe à uma coprodução espanhola (junto com França e Bulgária), Nobody Wants the Night, protagonizada por Juliette Binoche, a honra da sessão de abertura. O filme narra uma aventura pelas gélidas terras da Gronelândia no início do século e inclui também Gabriel Byrne e a japonesa Rinko Kikuchi no elenco. As duas estão apaixonadas pelo mesmo homem que, por sua vez, anda mais interessado na glória. Binoche é ingénua e orgulhosa; Kikuchi é uma inuit que espera um filho dele. Ambas vivem, cada uma à sua maneira, em compasso de espera. A realizadora Isabel Coixet já tem um currículo considerável de passagens por Berlim, Cannes, Veneza e nos prémios Goya. O diretor do festival, Dieter Kosslick, justificou a escolha afirmando que trata-se de um “impressionante retrato da coragem de duas mulheres a viver em condições extremas”.

Participação Portuguesa: os intoxicantes estados da mente

Pescadores e açorianos continuam a fascinar os documentaristas lusos, cuja participação no certame germânico em 2015 parte de uma observação da vida de alguns deles registada entre 1999 e 2001. Segundo a divulgação da própria Berlinale, esta nova montagem de Rabo de Peixe, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, contém “intoxicantes planos do mar, dos barcos, praias negras e casas brancas que aludem igualmente a estados da mente“…

Na Berlinale também está presente Iec Long, curta-metragem já exibida em Portugal no Porto/Post/Doc. Novamente rodado em Macau, esta é a mais recente colaboração de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata.

Os Mediáticos Comerciais: fantasias deprimentes

Há que se argumentar que as antestreias mundiais em Berlim das obras de maior apelo popular não parecem muito auspiciosas este ano. Neste sentido e, apesar do realizador Bill Condon ter andado metido no franchise Crepúsculo, talvez a mais promissora delas ainda assim seja Mr. Holmes – graças aos serviços prestados por Condon em tempos remotos (Deuses e Monstros, Relatório Kinsey).

A obra recria a personagem de Sherlock Holmes, que surge aqui com 93 anos a assistir a um filme no qual ele próprio é o protagonista – apenas para constatar que o mito (e os maneirismos) construídos em torno dele pouco têm de real. Atualmente, ele vive isolado da sociedade e dedica-se à apicultura – mas aos poucos começa a reconstruir na sua mente alguns mistérios insolúveis que o guiam para uma nova jornada.

E por falar em Crepúsculo e em deprimentes franquias de origem literárias, é de conferir (ou não) o que sairá da adaptação do romance E.L.James, As 50 Sombras de Grey, cujo enorme sucesso dá uma nova dimensão à famosa frase que Sigmund Freud teria proferido antes de morrer: “afinal, o que quer uma mulher?” Dada as tonalidades desta fantasia sadomasoquista, é de se julgar que a resposta permanecerá incógnita nos recônditos sombrios da alma humana. Filosofias à parte, o que interessa é que a produtora do filme andou por aí a afirmar que o filme privilegia o romance em vez do sexo – não vão as pré-adolescentes que podem adquirir o livro de James em qualquer hipermercado ser barradas na entrada do cinema. Estreia em Portugal ainda em tempo de um Dia dos Namorados romântico.

Já Kenneth Branagh é outro que não inspira confiança depois do terrível Jack Ryan: Agente Sombra, um dos piores filmes de 2014. Pelo conteúdo do que tem sido anunciado, dificilmente Cinderela e o seu tom de fantasia adolescente com “ação” o colocará outra vez num bom caminho. É possível que Cate Blanchet como vilã salve o dia e que Helena Bonham Carter seja divertida a fazer mais uma vez de fada-com-maneirismos-estranhos.

Últimas