A participação do festival de cinema de Tromso, no extremo norte da Noruega, já centro do círculo polar ártico, conta-se necessariamente entre uma das mais aliciantes experiências que tivemos oportunidade de participar. Necessariamente pela imponente beleza natural desta pequena ilha rodeada de fiordes, surpreendentemente pelo frio bastante suportável, devidamente patrocinado pela corrente quente do Golfo, e decisivamente pela variada e apetecível programação das várias secções.
Ao encarar o total da secção competitiva do festival dirigido por Martha Otte, encontram-se alguns pesos pesados, como Birdman, de Alejandro González Iñárritu, um dos principais nomeados aos Óscares, incluindo o Melhor Filme, mas também Leviatan, um dos nomeados para o Óscar de Filme Estrangeiro, do russo Andrey Zvyagintsev, ou ainda o potente documentário The Look of Silence, de Josh Oppenheimer. Apenas para citar alguns dos mais creditados, numa seção que incluía ainda Jauja, do argentino Lisandro Alonso, vencedor do Prémio FIPRESCI, em Cannes, na seção Un Certain Regard, Still The Water, da japonesa Naomi Kaease, igualmente presente em Cannes, na mesma secção, ou ainda Return to Ithaka, de Laurent Cantet. Isto para além, claro está, de P’tit Quinquin, a arrebatadora comédia satírica do francês Bruno Dumont que viria a arrebatar os principais prémios da 25ª edição do Festival de Tromso, na cerimónia que decorreu no serão de sábado passado na sala repleta do KulturHuset.
O filme recebeu o prémio AURORA, o principal galardão do certame, bem como a distinção da crítica internacional – com o prémio Fipresci, em cujo júri tivemos o prazer de integrar.
O outro vencedor foi o documentário The Look of Silence, do americano Joshua Oppenheimer, o filme-irmão que complementa o multi-galardoado O Ato de Matar, arrebatando o prémio FICC, mais conhecido pelo prémio Don Quixote. Já o Norwegian Peace film Award, um prémio para um filme norueguês sobre a paz, foi entregue à realizadora do documentário Drone, Tonje Henssen Schei, um documento que revela como o lado asséptico, telecomandado e até lúdico do novo arsenal tecnológico americano acaba por causar inúmeras e desnecessárias vítimas humanas.

O Tromso Palm Award, para o melhor do programa Filmes do Norte, foi atribuído a I Am Kuba, assinado por Ase Svenheim Drivenes. Por fim, o prémio do público, que encheu as salas, distinguiria o documentário The Salt of the Earth, de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, em que o realizador germânico segue a carreira do fotografo brasileiro Sebastião Salgado.
Ficou-nos ainda na memória a intensidade de dois documentários: Pulp: A Film About Life, Death & Supermarkets, sobre uma das mais carismáticas bandas de pop britânico dos anos 90, reservando em pano de fundo o concerto de despedida em Sheffield, a terra natal da banda de Jarvis Cocker; e ainda Brothers, o filme que passará a ser conhecido como o Boyhood da Noruega, já que é inegável ignorar os pontos de contacto com o fenomenal filme de Richard Linklater. E a verdade é que os mesmos adjetivos acabam por servir ao projeto que a mãe Aslaug Holm dedicou ao crescimento dos seus filhos Markus e Lukas, em captação de diversos momentos do seu crescimento ao longo de um período de oito anos. Apesar de ser escusado, convirá sublinhar que Aslaug não fazia a menor ideia que do outro lado do Atlântico, na costa oeste dos EUA, Linklater filmava uma semana por ano com o seu cast ao longo de doze anos. Foi o último filme do nosso festival, afinal de contas, a nossa aurora boreal.

