
“Ser ouvido é o desejo mais profundo do ser humano. Porque ser ouvido é ser legitimado. Mas quem quer legitimar o outro? Nós queremos é legitimar a nós próprios!” Essa frase capital foi proferida por Eduardo Coutinho, falecido no início de 2014, no documentário Eduardo Coutinho 7 de Outubro, onde o realizador Carlos Nader inverteu os papéis e pôs o que ele, corretamente designa, como um dos melhores entrevistadores do cinema brasileiro, no lugar de entrevistado. Para além deste trabalho, três obras de Coutinho poderão ser vistas na Mostra de Cinema da América Latina, que decorre no São Jorge, em Lisboa, entre 10 e 14 de dezembro: Edifício Master (2002), Jogo de Cena (2007) e As Canções (2011).
O documentário serve, de resto, como porta de entrada para um mundo singular e repleto de emoções fortes. A fonte: os testemunhos de gente comum, a única que interessava ao cineasta que, com pontos de partida simples, como a música preferida ou experiência da pessoa, arrancava momentos fortes e comoventes que compunham um quadro único da aventura humana.
Em Edifício Master, por exemplo, o cineasta e a sua equipa instalam-se num portentoso condomínio de Copacabana, no Rio de Janeiro, durante um mês – período em que dedicam-se a conhecer e entrevistar moradores. Com mais de 200 apartamentos e 500 moradores (!), a construção é um microcosmo com vida própria e pela câmara de Coutinho passam-se as mais incríveis histórias.
Estas retornam em outro trabalho belíssimo – As Canções (foto acima), que viria a ser o epitáfio do realizador antes de uma morte trágica em fevereiro de 2014. A premissa é, novamente, singela: os entrevistados têm de cantar a sua música favorita e justificar as suas escolhas. Novamente, o resultado são os pequenos grandes momentos de gente comum, de sofrimento, de alegria e, em último caso, de verdadeira magia. Isto porque o que se assiste não são pessoas a venderem uma imagem idealizada de si próprias para consumo externo, mas sim depoimentos repletos de autenticidade e espontaneidade.
Jogo de Cena, por sua vez, é de outra natureza, recorrendo ao trabalho de atrizes para recriar as histórias narradas nos bastidores.

