
O filme argentino mais falado do último ano, Relatos Salvajes (foto acima), abre nesta quarta-feira a 5ª edição da Mostra que, como é habitual, decorre no cinema São Jorge, em Lisboa. O evento termina no domingo. Pela primeira vez o Porto também terá uma extensão – que se vai realizar entre 30 de janeiro e 1 de fevereiro na Casa das Artes. Nas três seções da Mostra (Horizontes, Novos Caminhos e Retrospetiva) serão exibidos 17 filmes provenientes de nove países.
Relatos Salvajes, de Damián Szifrón, é a que carrega consigo o maior hype. Estreada na prestigiosa seleção oficial da última edição do Festival de Cannes, este panorama da Argentina contemporânea retira muita da sua força da organização em mosaico – aqui com a opção de não interligar as histórias. Na raiz de todos estes episódios da vida quotidiana está a fúria latente que pode emergir num piscar de olhos – desde o ódio a motoristas mal-educados ou a cônjuges adúlteros até – a mais fácil de encontrar identificação numa escala global – a ação totalitária e abusiva das companhias de multas estacionamento. Do anedótico ao violento – o que se sobressai mesmo é o poder de contador de histórias de Szifrón.
Também estreado em Cannes (na A Certain Regard), mas de 2013, foi o mexicano A Jaula de Ouro, outro dos destaques. Com estreia comercial para Portugal prevista para 2015, a obra narra as terríveis peripécias enfrentadas por três garotos da Guatemala que lançam-se na estrada para tentar chegar aos Estados Unidos. Previsivelmente, o que encontram pelo caminho são uma dramática cadeia de horrores, exibindo um panorama sombrio do interior da América Central e, claro, da violência implícita da própria fronteira dos Estados Unidos.
Homofobia, velhice, rebeldia e outras histórias
Nos demais filmes, o venezuelano Azul Y no tan Rosa traz uma temática queer e é centrado na vida de um fotógrafo homossexual que, subitamente, é confrontado com o aparecimento do filho já adolescente que vivia longe. Os preconceitos contra os gays é um dos pontos centrais da abordagem. Outro drama subterrâneo, a iliteracia, é trazido pelo chileno Las Analfabetas, enquanto a energia juvenil ligado ao graffiti e ao protesto político são a base de Los Hongos (foto abaixo). Este último também se destaca pelo seu caráter recente e bem-sucedido nas últimas edições de festivais comos de Rotterdão, Locarno, Toronto e Tóquio.

Igualmente celebrado, mas em 2013, foi La Demora, projeto uruguaio com amplo trajeto no circuito alternativo e prémio em Berlim, que aborda a história de um idoso abandonado num parque pela filha que já não queria cuidar mais dele. Por fim, o paraguaio Costa Dulce narra uma história de pobreza e ambição no interior do país, discorrendo sobre um caseiro frequentemente sem dinheiro por causa do jogo que atira-se aos mitos locais sobre enterros de ouro e mergulha num grande drama.
O mundo emocionante de Eduardo Coutinho
Vários dos melhores momentos desta Mostra da América Latina estarão presentes, certamente, nas dezenas de entrevistas que compõem os quatro filmes que serão aqui exibidos do brasileiro Eduardo Coutinho (foto abaixo), falecido no início deste ano. Sempre dedicado a recolher depoimentos de populares (nunca de figuras públicas) sobre os mais diversos assuntos, Coutinho logrou reunir uma vasta panóplia de momentos cativantes pelo seu caráter pitoresco ou fortemente emocional.

É o caso de As Canções (2011) ou Jogo de Cena (2007), onde os entrevistados falavam (e cantavam) da sua música favorita ou seu filme predileto (respetivamente), abordando as circunstâncias de suas vidas relacionados a eles. Já em Edifício Master (2002) destacavam-se os moradores de um enorme condomínio do Rio de Janeiro, enquanto Eduardo Coutinho 7 de Outubro é uma entrevista reveladora com o realizador filmada por Carlos Nader.
Curtas-Metragens: um Jodorowsky à procura da sua voz
Cinco curtas-metragens serão exibidas. O grande destaque para espíritos mais ousados é sem dúvida The Voice Thief, primeiro trabalho de Adan Jodorowsky, filho do consagrado realizador Alejandro. A obra traz a italiana Asia Argento no papel principal e cria um quadro delirante, ousado e abstrato baseado num construção visual de grande requinte – lembrando não só a obra de Alejandro como a de outros estetas como Peter Greenaway e até Frederico Fellini. A história, escrita por pai e filho, narra as desventuras de um nobre que desce ao submundo para recuperar (por mágicos artifícios) a voz perdida pela sua amada e arrogante esposa – uma cantora de ópera.
Outro destaque é Los Solecitos, outra obra de Oscar Ruiz Navia, de Los Hongos, também dedicada aos jovens. Baseada em entrevistas, o filme reconstrói com os seus dois protagonistas a relação de amor e separação vivida por eles – conseguindo um belo testemunho sobre as aventuras românticas da adolescência.
O brasileiro E trata das mudanças na vida urbana simbolizada pelos estacionamentos, enquanto Ricchieri faz um exercício semelhante abordando um parque junto de uma autoestrada. O cubano Los Pantalones Rotos debruça-se sobre o universo mental e existencial de uma família pobre do meio rural do seu país.

