Confissões em Veneza: a velha arte latina de ladrar e não morder

(Fotos: Divulgação)

Após um inicio fulgurante a multidão de Veneza rapidamente levou um banho de cruel realidade com uma série virtualmente interminável de autêntico lixo visual. Não fossem as atividades noturnas Venezianas tão excitantes como um ataque de herpes, o conjunto de filmes francamente maus até poderia ter passado despercebido. Calma, existem exceções e não são assim tão poucas. Afinal de contas, nestes últimos dias, foram projetadas umas boas dezenas de filmes e a lei das probabilidades sabe ser nossa amiga. Para além disso por aqui passaram nos últimos dias Roy Andersson e Shinya Tsukamoto, mestres da sétima arte que simplesmente desconhecem o significado da palavra falhanço (no mínimo, como muitas outras coisas que para o comum mortal são essenciais, é lhes completamente indiferente). Mas o positivo fica para amanhã.

Ao bom estilo Português, comecemos por nos concentrar no pior dizendo que Veneza gastou praticamente todos os cartuchos no primeiro dia e desde então a dor de cabeça não pára de se acentuar. A vida do mais recente trabalho do muito conceituado cineasta Turco/Alemão Fatih Akin, intitulado The Cut, há muito que dá que falar. Muitos acham que o auge da historia teve lugar no inicio de maio, mesmo antes do anúncio da programação de Cannes, altura em que Akin “decidiu” (leia-se foi obrigado) a retirar o filme do festival. As más línguas dizem que Cannes se recusou a incluir o filme em competição, oferecendo apenas um lugar discreto numa secção temática, após uma nova edição. A versão oficial é que Akin decidiu que precisava de mais tempo. A decisão popular ficou então adiada para Veneza (deve ter ficado possesso quando o compatriota Nuri Bilge Ceylan ganhou a Palma de Ouro).


The Cut

O tribunal prenunciou-se e 3 dias depois os insultos continuam frescos. Por questões pragmáticas passo a citar um tweet de um talentoso critico italiano que descreveu o filme da seguinte maneira: “The Cut conta-nos a historia de um cachecol que viaja por um mundo de guerra e dor para nos relembrar a importância da geografia“. Pode parecer ridículo, mas acreditem, mais acertado não poderia ser. Se alguma utilidade tem, será a de nos ajudar a perceber como funciona o sistema de coproduções internacionais: Tens de filmar em todos os países que abriram os cordões à bolsa, independente de fazer sentido sentido narrativo ou não. Seja como for, este drama épico, supostamente sobre o genocídio na Arménia (não estejam à espera de aprender seja o que for), valeu pelas gargalhadas indesejadas.

Outro fenómeno curioso foi o atentado em direto à carreira de Al Pacino, que apesar do seu talento e simpatia inquestionável, se viu apunhalado por dois guiões tão pouco atrevidos e ambiciosos que deixaram um sabor deveras amargo na boca. Em Manglehorn, de David Gordon Green, Pacino representa o papel de um velho à procura de um último amor, mas com um talento nato para deitar tudo a perder na Hora H, ironicamente tal como o filme, que ameaça ser muito mas na realidade pouco tem para oferecer. Salva-se a atuação de Harmony Korine, o patinho feio do cinema independente norte-americano, que também é ator, e diga-se com bastante potencial.


Manglehorn

Em Humbling, de Barry Livinson, o caso é menos extremo, com o velho Padrinho a encarnar o papel de um mega ator reformado que se apaixona por uma jovem lésbica. Apesar de alguns momentos interessantes, tal como a relação das personagens, o filme estava condenado à partida, por tentar incluir demasiada informação sem que seja possível deslumbrar um fio condutor. Pelo sim pelo não, assim que chegar a casa vou rever o Dog Day Afternoon para fazer justiça a tão nobre figura.

Por falar em velhos do restelo, e não me refiro à curta-metragem de Manoel de Oliveira do mesmo nome (a curta, não o realizador), que por aqui passou discretamente, surge Larry Clark com um filme novo, recheado do habitual voyerismo e adolescentes a rolar de skate. Seguramente já viram o Kids, o filme que tornou Clark num dos mais essenciais cineastas dos anos 90. Ora bem, The Smell of Us é tal e qual, só que em França e com personagens francamente mais indiferentes e desinteressantes, nada genuínas, que deambulam por um mundo de sexo e drogas. O artista norte americano, por motivos de saúde, não pode estar presente, enviando uma nota que lia: “Sempre me disseram que era impossível um realizador americano fazer um filme sobre adolescentes franceses. Este é o resultado”. Já diz o velho ditado: “quem te avisa teu amigo é“. Entra em cena a facada que esperemos seja final: Cymbaline, a adaptação moderna de uma peça de Shakespeare, com diálogos em inglês arcaico, com Ed Harris, Ethan Hawke e Milla Jovovich, realizado por Michael Almereyda.


Cymbaline

Sim, estão certos. A fórmula que Buz Luhrmann criou para dar asas ao mito que é Leonardo di Caprio voltou para por uma audiência inteira a dormir. Gloriosamente o pior filme do festival, até ao momento, é complicado aceitar que ver a Milla e o Ethan a passearem pela carpete vermelha é razão suficiente para selecionar um filme tão fraco em todos os aspetos. Hawke ainda dá um ar da sua graça, mas muito pouco para um filme que se autoproclamava como revolucionário, mas que no entanto a única reação emocional que despontou na critica foi o desespero à procura da saída da sala mais próxima enquanto se gritava “Porquê?“! Repito, há exceções, daquelas que dias depois ainda continuam a ecoar na mente, e que vão dar que falar nos próximos tempos, já para não relembrar que amanhã estreia Pasolini de Abel Ferrara e que o Postman’s White Nights, do talentoso cineasta Russo Andrej Koncaloskij, promete abanar uma competição que parece ter terminado logo no primeiro dia. Tudo a postos para o próximo capítulo.

Últimas