
É assim há quase 40 anos. A pacata estância termal, a menos de duas horas de Praga, recebe vida nova com a chegada do verão e de um dos mais importantes festival de cinema da Europa, depois dos série A, Cannes, Berlim e Veneza.
O ator australiano Mel Gibson foi um dos principais motivos de atração na abertura do 49 festival de Karlovy Vary, que decorre nesta estancia termal da Republica Checa até ao próximo dia 12, e que teve como filme de abertura I Origins, com Michael Pitt, que também marcou presença em KV. Isto para além do realizador maverick William Friedkin (O Exorcista), o sindicalista Andrej Wajda, a representar o filme biográfico Walesa: Man of Hope.
Ao receber o Globo de Cristal, justificado pela “contribuição artística para o cinema do mundo“, simbolizada no filme de 2006, Apocalipto, que apresentou em Karlovy Vary, Mel Gibson motivará certamente mais uma divertida curta metragem, em que irá parodiar essa mesma distinção. Tal como têm feito todos os anteriores homenageados em momentos de inegável sentido de humor. Num deles, Jude Law substitui o emblema do seu Rolls poe aquele troféu, ou um dormichoco Danny De Vito que o usa para destruir o telefone que o acorda…
Gibson não dá entrevistas

Apesar de toda as solicitações, o “Mad Max” não acedeu aos pedidos de entrevista e acabaria mesmo por afastar a ideia de uma conferência de imprensa. Seguramente uma decisão que afasta qualquer veleidade de confronto com as incendiárias declarações anti-semitas. Certamente, declarações que o irão perseguir, onde referiu que vivia “numa cidade dominada por judeus“… Entretanto, essa pira controversa viria ainda ser alimentada pela defesa que Gary Oldman fez da sua “coragem”, embora seguida de um oficial pedido de desculpas.
Todos os filmes do mundo
Para além das polémicas mais ou menos sensacionalistas, o festival dirigido por Jiri Bastoska mostra mais uma impressionante programação, que ultrapassa em muito a sua secção competitiva. Para esta ano, a equipa do diretor artístico Karel Och, devidamente aconselhado pela veterana Eva Zaoralova, selecionou com uma dúzia de filmes, e onde o filme francês de Pascal Rabaté Du Goudron et des Plumes é um dos fortes candidatos, ou a estreia do americano Jeff Preiss, com Low Down.
Para além dos filmes em competição, os muitos milhares de espetadores esgotam as diversas sessões. Seja a secção East of the West, com o melhor do cinema da Europa central e oriental. Aqui destacamos o controverso Varvari, na estreia do jugoslavo Ivan Ikic, sobre os tumultos radicais na independência do Kosovo.
A considerar ainda o Fórum de Independentes, os documentários em Competição, bem como a prestigiada Horizontes, numa recolha de alguns dos melhores filmes de outros festivais. Aqui fica uma lista minoritária de alguns dos bons filmes exibidos em Cannes e Berlim: 71, de Yann Demange, Aimer,Boir Chanter, o derradeiro filme de Alain Resnais, Amour Fou, de Jessica Hausner, bem como o encantado Boyhood, de Richard Linklater, premiado em Berlim, Il Capitale Umano, de Paolo Virzi, um dos principais candidatos aos prémios do cinema italiano. Temos também The Disappeareance of Eleanor Rigby, de Ned Benson, Still Water, de Naomi Kawase, Stray Dogs, de Tsai Ming Liang, Stations of the Cross, de Dietrich Bruggermann, Leviatan, de Andrej Zvjagincev, Love is Strange, de Ira Sachs, e ainda Le Meraviglie, de Alice Rohrwacher, Mommy, de Xavier Dolan, o futuro distópico em Snowpiercer, de Bong Joon-Ho, o avassalador Starred Up, de David Mackenzie, com a revelação chamada Jack O’Connell (também em ’71), Timbuktu, de Abderrahmane Sissako, que rendeu muitos em Cannes…
Tributos
Mas há mais: a retrospetiva a Elio Petri, um dos mal-amados cineastas italianos, que recebe em KV uma justíssima retrospetiva, de resto antecipada pelo documentário Elio Petri… Appunti su un Autore, concebido por Federico Bacci, Niccola Guarnieri e Stefano Leone. Desvendam-se assim e revelam-se filmes como L’Assassino, A Ciascuno il Suo, Indagino su un Cittadino al di Sopra di Ogni Sospetto, entre outros. Temos ainda a homenagem ao prolífico realizador-produtor e argumentista indiano Anurag Kashyap, e ao artista visual Ben Rivers com uma retrospetiva muito completa da sua obra.

