«As Crianças do Sacerdote» conquista Golfinho de Ouro no Festroia

(Fotos: Divulgação)

A comédia croata de perfil bastante comercial As Crianças do Sacerdote/The Priest’s Children, assinada por Vinko Bresan, reuniu o inesperado consenso do júri oficial para o mais alto prémio da secção competitiva do Festroia. O mais curioso é que seria o drama finlandês Coração de Leão/Heart of a Lion, de Dome Karukoski, o preferido do público (galardoado com o prémio do Público), da crítica internacional (recebeu o prémio FIPRESCI) e até da imprensa católica (com o prémio SIGNIS)…

O notável trabalho do norueguês Hans Peter Moland seria recompensado pelo Golfinho de Prata pela Melhor Realização por Em Ordem de Desaparecimento/In Order of Disappearence. Os prémios de interpretação foram para Vytautas Kaniusonis pelo seu trabalho o filme lituano O Jogador/The Gambler e para Birgitte Hjort Sorensen, no filme dinamarquês Alguém Que Amas/Someone You Love.

Não deixou de ser uma inesperada surpresa a opção do júri oficial, presidido pelo cineasta holandês Jos Stelling, em atribuir o prémio máximo da 30ª edição do Festroia à morna e pouco inspirada comédia As Crianças do Sacerdote, de Vinko Bresan, de resto autor de um dos maiores sucessos de bilheteira do seu país, apenas superado por… Titanic.

Na verdade, do ponto de vista formal até é escorreita esta sátira social cujo principal foco de atenção é o efeito picaresco que tem a decisão do padre Don Fabijan (Kresimir Mikic, verdadeiro sósia do americano Adrien Brody) em furar os preservativos que se vendem como pãezinhos quentes no quiosque local. O objetivo? Naturalmente, os frutos da tremenda atividade sexual de uma pequena comunidade de uma ilha Dálmata, contrariando assim o decreto papel que autorizara um uso parcial de contraceptivos e como forma de Don Fabijan mostrar serviço numa comunidade demasiado fiel ao seu pároco local.. Isto até as criancinhas começarem a nascer e a terrinha começar a ser procurada por casais nascituros. Só que o lado mais picante desta história depressa se esgota no contínuo repisar de clichés.

Percebe-se a ideia de gerar um divertimento de brandos costumes para degustação de um público generalizado, à boa maneira das comédias italianas dos anos 60 e 70, apostando na riqueza de personagens e situações. Só que depressa esse efeito se esfuma. Ao fim de meia hora estas Crianças do Sacerdote já esgotou todos os trunfos que nos fizeram sorrir com bonomia, ainda que sem o desejado gosto de repetidas gargalhadas genuínas. Decididamente, um filme sem a dimensão e espessura para receber o prémio mais importante.

Bem diferente é o percurso de redenção de um tatuado skinhead neo-nazi finlandês no bem urdido drama Coração de Leão, um filme que bem cedo conquistou o interesse dos festivaleiros.

Teppo (notável Peter Franzén) é um homem de meia idade que envolto num grupo racista que defende a “Finlândia branca“. Honesto, confirma mesmo à namorada Sari (Laura Birn) que engatou num bar que “não tem nada na cabeça”. O futuro dessa relação vive um severo revés, quando Sari lhe revela que tem um filho “escurinho” fruto da relação com um marroquino. Apesar de Teppo até simpatizar com o miúdo Rhamadhani, sabe que terá de enfrentar a ira do grupo de skins, sobretudo do seu irmão mais novo Harri, um dos elementos mais radicais.

Bem andou o cineasta Dome Karukoski ao trabalhar este intrincado novelo, ele que é filho de uma jornalista finlandesa e ator americano e nascido no Chipre: vigoroso na forma como ataca um tema sensível, mas sem o banalizar; sensível na gestão em lume brando de um naipe incrível de atores e poderoso no uso de uma câmara inquieta que traduz a indecisão e a raiva dos protagonistas.

Dome não é sequer alheio a Setúbal e ao Festroia. Em 2009 esteve presente no festival com dois filmes, A Casa das Borboletas Negras (2008) e Fruto Proibido (2009), acabando por arrebatar diversos prémios, incluindo um Golfinho de Ouro. Neste regresso, deixa igualmente a sua marca.

Trata-se, na verdade, de um realizador inspirado, ele que viu o filme do final do curso na Universidade de Helsínquia Beauty and the Bastard coroado por vários prémios e com o aplauso do público e da crítica. Seguramente, uma bela descoberta do festival dirigido por Fernanda Silva.

Outro dos grandes momentos deste Festroia foi seguramente a paródia sanguinária de Hans Petter Moland, Em Ordem de Desaparecimento/In Order of Disappearence, que fez parte da seleção oficial do festival de Berlim. Um filme de vingança. No caso, a vingança de Nils (Stellan Skarsgard, como sempre muito eficaz), um condutor de limpa-neve, que enterra o filho supostamente alvo de overdose. Quase a apertar o gatilho para por termos à vida confessam-lhe que o filho teria sido traído por traficantes de cocaína.

É aí que Nils se vê forçado a limpar, um por um, os diversos elementos de um cartel de droga norueguês, tal como os respetivos rivais bósnios e chineses. Uma metáfora ilustrada de forma original pelo limpa-neve que percorre aquela região gelada, como se estivesse numa pradaria no Velho Oeste, atirando a neve (a cocaína?) de borda fora. Nile é um vilão por força das circunstâncias, à boa maneira de Clint Eastwood e Sergio Leone. É claro que ao trilhar este território serão inevitáveis as comparações a Tarantino. De resto, algo que Moland assumirá de bom grado, o que não o impede de saber misturar com sabedoria e bom gosto essa mescla de humor sardónico, pontuado por solavancos de violência brutal. De resto, devidamente assinalados “por ordem de desaparecimento”. In Order of Disappearance é daqueles exemplos do cinema europeu que bem merecia ser descoberto por uma vasta plateia.

Vencedores

30ª EDIÇÃO

FESTROIA – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE SETÚBAL

PRÉMIOS ESPECIAIS

PRÉMIO DO PÚBLICO – CORAÇÃO DE LEÃO, de Dome Karukoski, Finlândia
PRÉMIO HOMEM E A NATUREZA – O CÍRCULO, de Stephan Haupt
MENÇÃO ESPECIAL – ASIER E EU, de Amaia Merino e Aitor Merino, Espanha
PRÉMIO PRIMEIRAS OBRAS – ANTES QUE NEVE, de Hisham Zaman, Noruega
MENÇÃO ESPECIAL – POST PARTUM, de Delphine Noels, Bélgica
PRÉMIO FIPRESCI – CORAÇÃO DE LEÃO, de Dome Karukoski
PRÉMIO SIGNIS – CORAÇÃO DE LEÃO, de Dome Karukoski
PRÉMIO CICAE – ALGUÉM QUE AMAS, de Pernille Fischer Christensen, Dinamarca
PRÉMIO MÁRIO VENTURA – O MEU AVÔ, de Tony Costa, Portugal

PRÉMIOS OFICIAIS

MELHOR FILME – GOLFINHO DE OURO – AS CRIANÇAS DO SACERDOTE, de Vinko Bresan, Croácia/Sérvia
PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI – FARO, de Fredrik Edfelt, Suécia/Finlândia
MELHOR REALIZADOR – HANS PETTER MOLAND, por “Em Ordem de Desaparecimento”, Noruega
MELHOR ATOR – VYTAUTAS KANIUSONIS, por “O Jogador”, de Ignas Jonynas, Lituânia/Letónia
MELHOR ATRIZ – BIRGITTE HJORT SORENSEN, por “Alguém Que Amas”, Dinamarca
MELHOR ARGUMENTO – IGNAS JONYNAS e KRISTUPAS SABOLIUS, por “Jogador”, Lituânia/Letónia
MELHOR FOTOGRAFIA – THOMAS W. KEINNAST, por “O Vale Negro”, de Andreas Prochaska, Áustria/Alemanha

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