
Completar 30 anos é obra. Neste caso uma obra dedicada a um cinema que não vive de passadeiras vermelhas e chorudas receitas de bilheteira, mas sim de descoberta. E muito haverá para descobrir na programação que decorre em Setúbal de 6 e até ao dia 15 de junho. E a abertura não podia ser melhor, com a escolha do magnífico As Estações da Cruz, de Dietrich Bruggermann, premiado este ano no festival de Berlim pelo argumento, escrito em parceria com a sua irmã Anna.
Este foi também o filme que abriu a habitual secção de Homenagem, este ano dedicada à Alemanha. Oportunidade para rever marcos do cinema alemão, como As Asas do Desejo, de Wim Wenders, bem como outros títulos relevantes que a cinematografia germânica nos tem servido nos últimos anos, pela mão de realizadores da craveira de Fatih Akin (Solino), Christian Petzold (Yella), Andreas Dresen (Nunca é Tarde Demais Para Amar) ou Wolfgang Becker (Adeus, Lenine). E ainda para descobrir alguns valores da nova geração, como Stanislav Gunter (Nemez), Jan Ole Gerster (Oh Boy) ou Edward Berger (Jack, também presente em competição esta ano em Berlim).

Dietrich e Anna Bruggermann
A cerimónia começou com um resumo de imagens evocatórias das personalidades que passaram pelo Festroia, devidamente acompanhado por um duo musical ao vivo. De Lauren Bacall, a Pedro Almodovar, Robert Mitchum, Ben Gazara, Mickey Rooney, entre muitos outros nomes relevantes do cinema de Hollywood e não só. Um período de outro evocado pela diretora do Festroia Fernanda Silva, embora enfatizando que “os tempos são outros“, recordando embora que a força do Festroia fez-se sempre “com os melhores filmes“.
Num total de perto de duas centenas de películas, o festival divide-se entre três secções competitivas, a Secção Oficial, a de Primeiras Obras e ainda a habitual O Homem e a Natureza.
No entanto, os olhos estarão postos nos catorze filmes da Secção Oficial em concurso para o Golfinho de Ouro, a que se dedicará o júri internacional presidido pelo cineasta holandês Jos Stelling, onde encontramos Diamantes Negros, uma co-produção entre Portugal, Espanha e Estónio, dirigida pelo espanhol Miguel Alcantud, entre filmes de várias proveniências.
Desde já, com a curiosidade de chamar a temática do futebol para colmatar a ausência de esperança no coração de África.
Haverá “gangues, drogas e rap ordinário“, em Fendas no Betão, do austríaco Umut Dag, descendente de emigrantes curdos; haverá também movimentos nacionalistas de skinhead neo-nazis, em Coração de Leão/Leijonasydan; uma sempre fascinante e criativa cinematografia belga flamenga, este ano representada por dois filmes na competição – Marina, de Stjin Coninx, e O Veredito/Het Vonnis, assinado por Jan Verheyen, com intrigantes histórias do quotidiano. Haverá ventos de resistência à abertura da igreja, em As Crianças do Sacerdote, do experiente sérvio Vinko Bresan. E até, porque não, a uma evocação do Festival da Eurovisão da Canção, vivido em Telavive, filtrado pela câmara do israelita novaiorquino Eytan Fox, Cupcakes.

Coração de Leão/Leijonasydan
O produtor Paulo Branco será igualmente homenageado com um Golfinho de Carreira e a exibição de quatro das suas relevantes produções (A Cidade Branca, de Alain Tanner, O Rei das Rosas, de Werner Schroeter, As Canções de Amor, de Christopher Honoré e ainda Cosmopolis, de David Cronenberg.
Então e o cinema português? Para além de várias curtas recentes, a programação do Festroia selecionou a longa de Alexandre Ceberian Valente, Eclipse em Portugal, evocando o caso da morte de um casal de Ílhavo inspirado por um ritual satânico. O produtor e o realizador de Second Life procuram recriar a história chamando até um elenco de peso.
Consulte no site oficial do festival toda a programação: http://www.festroia.pt
30 anos de história do cinema

Já lá vão quase 30 anos. Quis a teimosia do escritor e jornalista Mário Ventura vingar na divulgação das cinematografias menos conhecidas do público português (com menos de 30 filmes por ano) conduzindo-a ao nascimento do Festroia. De imediato, o evento começou a chamar à península de Tróia muitos cineastas, imprensa e algumas estrelas de cinema Vedetas de Hollywood, como Robert Mitchum, Kirk Douglas, Jane Russel, Dennis Hopper, Mickey Rooney, mas também nomes como Nelson Pereira dos Santos, Pedro Almodóvar, entre muitos outros, conferiram ao certame a devida projeção.
No entanto seria já em Setúbal que o festival recuperaria o seu estatuto, conseguindo manter uma programação coerente e de qualidade. Mesmo após a morte de Mário Ventura, a herança do festival prossegue com Fernanda Silva, que logo a seguir trás a Portugal personalidades como Christopher Lee e o realizador checo Jiri Menzel. Apesar da prolongada crise económica, o certame tem conseguido manter o seu pólo de atração em inúmeros participantes que se mantém fiéis ao apelo a Setúbal e ao seu festival de cinema.
Já com a sala renovada do teatro Luísa Todi, o Festroia afirma-se como uma das mais relevantes manifestações culturais do nosso país. De salientar que o certame é membro pertencente da FIAPF (Federação Internacional das Associações de Produtores de Filmes) e mantém os júris FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema), SIGNIS e CICAE, para além do Prémio do Público e Prémio Mário Ventura.

