
Família de José Wilker recebe a homenagem póstuma
Foto: Daniela Nader/Divulgação
A cerimónia de entrega dos prémios, na sexta-feira à noite no Teatro Santa Isabel, pelos atores Deborah Secco e Bruno Torres, foi marcada em traje de luto pelas homenagens ao jornalista João Carlos Sampaio, falecido nessa madrugada, e pela já prevista recordação da carreira de José Wilker, desaparecido apenas alguns dias antes do início do certame. Numa cerimónia rápida, em não mais de uma hora e sem discursos de agradecimentos, foram entregues as diversas Calungas para as inúmeras do categorias.
Na distribuição de prémios da mostra Competitiva de Ficção, a produção brasileira Muitos Homens Num Só foi a grande vencedora, arrecadando alguns dos principais troféus num total de dez Calunga. Num afinado registo de época – o início do século XX – vive-se a singular história de amor entre um ratoneiro “don juan” que se infiltra em quartos de hotel para roubar os hóspedes, acabando por se apaixonar por uma desenhista. Pena é que o filme assinado por Mini Kerti opte por privilegiar um registo mais televisivo que cinematográfico, apostando na química entre duas vedetas do showbiz brasileiro – Vladimir Prista e Alice Braga, ambos recompensados com os respetivos prémios de interpretação – para uma trama que nem sempre se revela mais interessante do ponto de vista cinematográfico. Na bagagem para o Rio, a equipa do filme levou assim os prémios de: Melhor Filme, Melhor Realização, Ator, Atriz, Ator Secundário (Pedro Brício),Argumento (Leandro Assis), edição de som (Sérgio Mekler), banda sonora (Dado Villa Lobos), direção de arte (Kiti Duarte), para além do Prémio do júri popular.

A grande premiada da noite, Mini Kerti, realizadora de Muitos Homens num Só
Foto: Daniela Nader/Divulgação
Romance Criminal foi o outro vencedor da noite. O policial romântico de Jorge Durán, realizador radicado no Brasil desde 1973, venceria nas categorias de Melhor Ator Secundário (Victor Monteiro), Atriz Secundária (Roxana Campos) e fotografia (Luis Abramo). Bem curioso este filme ambientado no solo árido e deslumbrante do deserto de Atacama. Antonio, um jovem escritor viajante (Daniel de Oliveira) que é preso pelas autoridades chilenas (Alvaro Rodolphy) depois de encontrar um corpo já sem vida. Impedido de deixar o país, acaba por envolver-se numa relação afetiva com Florencia (Daniela Ramirez), que acaba por influenciar a forma como escreve.
Anni Felici, de Daniele Luchetti, a atraente comédia familiar recentemente exibida na mostra de cinema Italiano em Lisboa, receberia os prémios de melhor montagem (Marci Garron) e Melhor Atriz Secundária (Pia Engelberth). Luchetti apresenta-os uma eficaz reconstituição dos anos 70, na evocação da memória do narrador, no tempo em que era criança e lidava com energia criativa do pai, um artista plástico (Kim Rossi Stuart) e os problemas conjugais com a mãe carente e ciumenta (a belíssima Micaela Ramazzotti). No entanto, um registo mais eficaz na exploração dessa memória, de fundo biográfico, em que se vive um período de mutação de costumes, onde se pressente onde o narrador (o realizador?) sentirá a nasceu dentro de si a sua própria alma criativa.
O mítico filme de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol, foi recordado pelo crítico Luís Zanin ao completar 50 anos da sua produção, fita que de resto marcaria presença na secção competitiva do Festival de Cannes de 1964.
E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, vence prémio da crítica
O pungente documentário de Joaquim Pinto (mas também Nuno Leonel) acaba por ser um dos grandes vencedores da 18ª edição do CinePE, no ano em que abriu as portas a ficções e documentários estrangeiros. Já depois do trabalho de Joaquim Pinto ter recebido o prémio de Melhor Realização, na secção documental, foi votado como o Melhor Filme pelo júri da Abracine (que tivemos a honra de partilhar). De resto, um filme que logo motivou os mais rasgados elogios logo que foi exibido, mesmo com legendas em português do Brasil. Ficou claro que a depuração cinematográfica e a concepção de tempo a que Pinto chegou ao acompanhar a sua pesada terapia de para lidar com uma hepatite C. E nem mesmo o tempo – os tão comentados 164 minutos! – se impõe nesse percurso ao fim do qual chegaremos modificados.
Na hora da entrega do prémio, o júri abdicou da sua justificação pelas intensas palavras que João Carlos Sampaio escrevera – afinal de contas, uma das suas derradeiras críticas antes de falecer. Que aqui reproduzimos: “Dores no corpo e na alma diante da angústia de ter os dias contados… e esse dolorido confrontado com um estranho ‘carpe diem’. Um jeito de lidar com o tempo que resta, que não se submete ao desespero pela alegria, ou ao arrebatamento da festa, mas por algo que é quase o oposto da euforia. Uma celebração quase religiosa do tempo, como se um dia inteiro coubesse numa tarde morna, acomodada em afetos demorados, intensos sentimentos e silêncios… Tô falando de E Agora? Lembra-me, filme do português Joaquim Pinto, exibido no 18º Cine PE. Coisa finíssima!“
VENCEDORES DO CINE PE 2014 – Calungas (12 categorias)
Cinema de Ficção Internacional
Filme: Muitos Homens Num Só, de Mini Kerti
Direção: Mini Kerti (Muitos Homens Num Só)
Ator: Vladimir Brichta (Muitos Homens Num Só)
Atriz: Alice Braga (Muitos Homens Num Só)
Ator Secundário: Victor Monteiro (Romance Policial, de Jorge Durán) e Pedro Brício (Muitos Homens Num Só)
Atriz Secundária: Roxana Campos (Romance Policial) e Pia Engleberth (Anni Felice)
Argumento: Leandro Assis (Muitos Homens Num Só)
Fotografia: Luis Abramo (Romance Policial)
Direção de Arte: Kiti Duarte (Muitos Homens Num Só)
Banda Sonora: Dado Villa-Lobos (Muitos Homens Num Só)
Edição de Som: Tomás Alem (Muitos Homens Num Só)
Montagem: Mirco Garrone (Anni Felice, de Daniele Lucheti)
Prêmio do Júri Popular: Muitos Homens Num Só, de Mini Kerti
Prémio da Crítica – Júri da Abraccine: E Agora? Lembra-Me, de Joaquim Pinto (Portugal).
Prémios especiais do júri oficial:
Menção Honrosa: “Para o filme O Menino no Espelho, de Guilherme Fiúza Zenha (MG), por ampliar a proposta de uma produção brasileira que destaca fatos da história nacional para um público infantil“.
Menção Honrosa: “Para o elenco infantil dos filmes Anni Felice, de Daniele Lucheti (Itália), e O Menino no Espelho, de Guilherme Fiúza Zenha (MG), em especial para o ator mineiro Lino Facioli.“
Menção Honrosa: “Para o filme Mundo Deserto de Almas Negras, de Ruy Veridiano (SP), pela inventividade e ousadia ao construir um filme que utiliza o espírito ‘DJ’ na construção de sua narrativa.“

