O filme mexicano El Fantástico Mundo de Juan Orol abre o certame, que decorre entre os dias 12 e 15 no cinema São Jorge, em Lisboa. No total, 12 filmes serão exibidos, abrangendo obras de dez países diferentes e representando os três continentes americanos. A destacar ainda a grande quantidade de primeiras obras – que totalizam oito trabalhos. O incontornável tema da ditadura marca, a exemplo do ano passado, novamente presença, mas é de destacar ainda a seleção de quatro road movies, para além de obras mais intimistas.
Com a eficácia em termos de produção a expandir-se pelo mundo afora e deixando de ser apanágio de Hollywood, a mostra da América Latina traz uma boa oportunidade para os interessados em conhecer cinematografias com temáticas diferentes dos cinemas norte-americano ou europeu.
O que ver na Mostra
El Fantástico Mundo de Juan Orol
O filme de abertura, El Fantástico Mundo de Juan Orol reconstrói com um tratamento nostálgico e não de todo comprometido com os factos a vida de um cineasta mexicano que dá nome ao filme. Orol, principalmente dos anos 30 aos 60, produziu filmes de grande sucesso comercial, principalmente naquele que era o seu género favorito – o noir. Uma das originalidades desta abordagem é a utilização de técnicas do cinema desde o seu primórdio para contextualizar a ação – começando com a infância de Orol mostrada como se fosse um filme mudo. Primeiro filme de Sebastián del Amo, que atualmente prepara uma biografia de outro ícone popular do seu país, o comediante Cantinflas.
Rincón de Darwin
Coprodução entre o Uruguai e Portugal, através da Som e Fúria. Três homens dirigem-se a uma cidade distante para tratar da venda de um imóvel. Mas o que era para ser apenas uma simples viagem de negócios, origina um road movie pelas paisagens uruguaias repleto de consequência para os seus protagonistas. Paralelamente, a trajetória deles é acompanhada por leituras em off de excertos de Darwin sobre o país. O cientista teve uma estadia, em 1833, no local que dá nome ao filme, fazendo descrições que permitem um interessante diálogo com o presente. Primeiro trabalho de Diego Fernández.
Infância Clandestina
Um dos grandes destaques é o belo Infância Clandestina, obra que encerra a mostra e trata do pesadelo recorrente dos argentinos: a ditadura. A abordagem, desta vez, é feita através do olhar de um pré-adolescente, que vai descobrindo o amor e entrando na vida adulta ao mesmo tempo que tem de viver clandestinamente por ser filho de um casal pertencente ao grupo de resistência armada Os Montoneros. A obra foi baseada numa história real e entrelaça-se com a mãe do realizador Benjamin Ávila, desaparecida desde a altura que o filme retrata, o ano de 1979.
Era uma Vez Eu, Verónica
O responsável por uma das obras mais emblemáticas do cinema brasileiro do século XXI, Marcelo Gomes, realizador de Cinema, Aspirinas e Urubús retorna na sua terceira longa-metragem, Era uma vez Eu, Verônica. De caráter intimista, lida com uma protagonista a passar por grandes dilemas existenciais. Trabalho premiado em San Sebastián. O penúltimo trabalho de Gomes, Viajo porque Quero, Volto porque Te Amo, teve em exibição recente em algumas salas do norte do país.
7 Cajas
Outro bom momento do cinema latino-americano é o paraguaio 7 Cajas, uma obra que mistura com eficácia um enredo policial com realismo social, contando uma história passada naquele que é um dos maiores emblemas do Paraguai, as feiras de objetos contrabandeados. Primeira obra dos cineastas Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori, vencedora de um prémio em San Sebastián e nomeada para os Goya de Melhor Filme Ibero-Americano.
Pescador
Road Movie que parte de uma pequena localidade pesqueira do Equador, onde a vida é sacudida quando um carregamento de cocaína vem dar à praia. Um dos que aproveita a oportunidade é um pescador Blanquito que, junto com a sua namorada, parte em viagem para tentar vender a droga e arranjar dinheiro, com diferentes objetivos. O cineasta Sebastián Cordero é um dos mais prestigiados a comparecer à mostra, tendo já passado pela Um Certo Olhar em Cannes, com o filme Crónicas (2004), obra pela qual também esteve em Sundance. Sua obra de 2009, Rabia, foi produzida por Guillermo del Toro.
Carne de Perro
Obra das mais intrigantes, este primeiro trabalho de ficção de Fernando Guzzoni é uma leitura intimista da ditadura chilena, focada na existência atual e sem rumo de um ex-torturador. Perdido e sem referências num mundo que já não guarda afinidades com os antigos tempos, o protagonista vaga fantasmagoricamente por um quotidiano solitário e sem sentido, buscando reconstruir a sua vida. O filme passo por San Sebastián no ano passado.
Ruta de la Luna
Filme do Panamá que narra a história de um albino campeão de bowling que tem uma relação distante com o pai. Depois de ir vê-lo após muitos anos quando este tem uma ataque cardíaco, sua vida muda quando este decide voltar para o seu país com ele. Estreia nas longa-metragens de Juan Sebastian Jacome.
Las Buenas Hierbas
Drama intimista contado em capítulos que aborda, principalmente, a relação mãe e filha, particularmente quando a primeira começa a sofrer de Alzheimer. Com um atmosfera algo mística, por vezes a beirar o surreal, é o sexto trabalho de uma das mais bem-sucedidas cineastas mexicanas, María Novaro, vencedora ou nomeada a prémios em Berlim, Sundance, San Sebastían e os Spirit Awards, entre outros.
Una Bala para Che
Una Bala para Che, da realizadora uruguaia Gabriela Guillermo, parte de um facto verídico ocorrido em Montevidéo na década de 1960, quando o professor Arbelio Ramirez foi morto por acidente numa tentativa de execução de Che Guevara, que por lá andava exilado. O crime permanece até hoje sem ser esclarecido.
Coliseo, Los Campeones
O confronto entre o moderno e o tradicional forma o conflito básico deste drama, que narra a história de uma rapaz ambicioso e a trabalhar para um empresário de Lima, Perú, que quer adquirir um espaço dedicado ao folclore regional na localidade onde ele vivia. Ocorre que o dono do local, agora na bancarrota, é o seu avô adotivo, um homem que tirou a ele e várias outras crianças da rua, adotando-as e passando a elas a arte da dança tradicional. Para tentar salvar o Coliseo, os jovens tentarão vencer uma competição. Realizado por Alejandro Rossi.
La Lucha de Ana
Obra marcada pela denúncia social, narra a luta por justiça de uma mãe solteira que vende flores para ganhar a vida – até que uma tragédia a impele para um confronto onde já não mede os riscos para vencer. Filme da República Dominicana realizado por Bladimir Abud, na sua estreia nas longa-metragens. Em 2013 estreou outra obra no seu país, a comédia Los Super.

