Criticas do Fantasporto: ‘Heartless’ por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)
“Heartless” marca o regresso do londrino Phillip Ridley à realização, quinze anos depois do seu último filme. Ridley dedica-se a diversas artes: é autor de livros, contos, peças de teatro, exposição e inclusive algumas canções. Uma parte considerável destes trabalhos é orientado para crianças. No cinema conta apenas com “The Reflecting Skin” de 1990 (drama rural passado no Idaho) e “The Passion of the Darkly Noon” de 1995 (filme de terror com Brendan Fraser em início de carreira e vencedor do prémio realização do Fantasporto 1996).

Jamie Morgan (Jim Sturgess de “Across the Universe”) é um jovem que possui uma marca de nascença no rosto em forma de coração e que descobre que existem demónios no seu bairro dos subúrbios de Londres. Demónios vestidos com “hoodies” espalham a violência na zona, acabando por matar a sua mãe. Desesperado e a caminho da loucura, Jamie conhece um homem inquietante chamado Papa B com quem faz um negócio: se ele matar alguém as suas manchas desaparecem e a mulher dos seus sonhos poder-se-á interessar nele.

“Heartless” – o vencedor do Fantas 2010 – é uma versão moderna e inglesa do mito do Fausto. Passado nos pobres e violentos subúrbios de Londres (cenário de outros filmes do certame como “Fish Tank” e “Colin”), o filme começa com um interessante e negro primeiro acto, com um triste mas adorável Jamie a percorrer as ruas degradadas onde descobre as presenças demoníacas. O realizador Phillip Ridley (“The Passion of the Darkly Moon”) cria um bom ambiente e um “look” de thriller negro que combina o urbano e o sobrenatural, lembrando clássicos como “Jacob’s Ladder” ou “Angel Heart”, com criaturas reminiscentes às saída do imaginário gótico de Clive Barker (“Hellraiser”).

Infelizmente, o primeiro acto promissor dá lugar a um segundo acto rotineiro e um terceiro acto deliberadamente confuso, mas derradeiramente desinteressante. O diabo em questão com quem este Fausto negocieia é uma personagem chamada Papa B (Joseph Mawle), uma espécie de lider de gang excêntrico que não convence nem encanta como outros demónios negociadores de almas que vimos no passado. Basta dar o exemplo de Robert De Niro em “Angel Heart”. A relação entre Jamie e a modelo Tia é também desenvolvida de uma maneira muito ligeira e precária, e o relacionamento deles nunca convence nem interessa.

O acto final do filme torna-se num pequeno puzzle onde não sabemos o que é real ou não, e as reais implicações dos actos de Jamie e das ameaças de Papa B. No entanto, toda a estrutura narrativa de “Heartless” é frágil demais, e o filme cai na monotonia depressa devido ao desinteresse gerado sobre as personagens.

O Melhor:
Uns subúrbios de Londres degradados habitados por gangs de demónios muito urbanos e um trabalho fantástico do actor Jim Sturgess que cria uma personagem interessante apesar da fragilidade do argumento.

O Pior:
As personagens e os desafios que Jamie enfrenta são lugares comuns de centenas de outros filmes, e baseados em duas personagens mal conseguidas: Tia e Papa B.

Base
O vencedor de Fantas 2010 está bem longe de fazer justiça ao galardão, especialmente quando comparado com vencedores recentes como o criativo “Nothing”, o emocionante “REC”. Este thriller de terror conta com um bom protagonista mas um guião muito fraco….5/10

 
José Pedro Lopes


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