Criticas do Fantasporto: ‘Deliver us from Evil’ por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)

Peter e Pernille, um casal moderno e progressista, mudam-se com os seus dois filhos da grande cidade para uma pequena vila em Jutland, onde Peter havia crescido, em busca de uma vida mais calma.

A ajudar Peter a remodelar a casa de família está Alain, um emigrante vindo da guerra dos Balcãs e que é visto pelos demais habitantes de Jutland – um meio pequeno e xenófobo – com muito maus olhos (ele é descrito como “o negro”). Alain é calado e tem dificuldades a exprimir-se, e vive ainda debaixo do trauma da sua família ter morrido na guerra.

Na vila vive também o irmão de Peter – Josh – que é o total oposto da sua figura liberal e responsável. Josh nunca saiu de Jutland, e é um camionista negligente e alcoólico que chega a ser violento com a sua namorada.

No entanto, ao descobrir que vai ser pai, Josh decide mudar de estilo de vida e tornar-se uma pessoa melhor. Mas mal chega a estar conclusão, ele atropela acidentalmente uma mulher de idade chamada Anna.

Receoso das consequências, Josh esconde o cadáver de Anna na berma de estrada e monta um plano para fazer com que tudo pareça culpa de Alain, o “negro” que todos odeiam.

O plano funciona, e o empresário dominador da região – que era grande amigo da falecida – reúne um conjunto de subalternos e aldeões alcoolizados para linchar Alain.

Mais civilizado, Peter esconde Alain em sua casa esperando que os ânimos se acalmem. Os locais fazem então um cerco a sua habitação e partem para uma guerra.

Esta narrativa soa bem mais do que apenas familiar para quem tiver visto o “Straw Dogs” de Sam Peckinpah, filme choque dos anos 70 com Dustin Hoffman. Mais do que uma narrativa semelhante, a própria dinâmica das personagens é basicamente igual.

O protagonista é culto e civilizado, mas torna-se violento e territorialista. A mulher dele é objecto de desejo de todos os homens e uma pacifista, mas quando chega ao dilema moral quer entregar o “assassino” aos lobos.

O suposto assassino é também similar – Alain é aqui um imigrante que se exprime mal, em “Straw Dogs” tínhamos um deficiente mental que se exprimia também mal. Os “linchadores” também são comuns: aldeões bêbados liderados pelo homem influente da vila que está cego de vingança (aqui pela morte de uma amiga, no filme antigo pela morte da filha). Os pontos comuns estendem-se: temos uma violação, com a mesma motivação em ambos os filmes, no caso do filme de Sam Peckinpah é até a cena mais conhecida e controversa que o colocou na história do cinema.

Há que notar que “Straw Dogs” é um filme que já foi imitado, roubado e clonado vezes sem conta. Nesse ponto “Deliver Us From Evil” não choca apesar de ser impressionante como o filme dinamarquês é tão exageradamente próximo nos pontos acima.

No entanto, o filme de Ole Bornedal (do sucesso dos anos 90 “Nattevagten” e do seu ‘remake’ americano), quando isentado disto, é um filme soberbo. Belissimamente fotografado e habilmente realizado, “Deliver Us from Evil” é uma prova que o cinema escandinavo (onde podemos incluir de “Millennium” a “Let the Right on In”) está vivo, forte, comercial e cada vez mais promissor. O filme é cativante no primeiro acto e emocionante na confrontação do segundo.

As personagens estão muito bem construídas no primeiro acto, e existem actuações ao mais alto nível. De notar a prestação de Lasse Rimmer como Peter e acima de tudo de Lene Nystrøm como Pernille, a mulher do protagonista, interpretada com as doses perfeitas de carácter e atitude. Uma surpresa no ecrã, especialmente depois de descobrirmos que esta espectacular norueguesa é, nada mais, nada menos, que a vocalista do banda pop dos anos 90 ‘Aqua’.

Face a “Straw Dogs”, há que reconhecer que “Deliver us from Evil” é uma adaptação com boas ideias e actualizações interessantes. O salto de uma história tipicamente sobre a América profunda para um canto pouco habitado da Dinamarca é perfeita, e a crítica social aqui é ainda mais mordaz. Os aldeões dirigem toda a sua fúria para o imigrante, e o choque cultural e xenófobo caracterizado no filme é verdadeiramente europeu e contemporâneo.

É também uma história habilmente conseguida do ponto de vista humano, não só graças ao grande elenco, mas ao trabalho do experiente Bornedal que dirige o filme com um equilíbrio perfeito entre esteticismo e realismo, com dilemas reais perfeitamente caracterizados e um olhar indignado sobre uma Europa profunda aparentemente pacífica mas com muito ódio escondido.

O Melhor: Ole Bordenal realiza o relato com mestria, dinamismo e grandes doses de crítica social. Os protagonistas Lasse Rimmer e Lene Nystrøm estão perfeitos e dão ainda mais força à história.

O Pior: As semelhanças exageradas com “Straw Dogs”, o filme choque de Sam Peckinpah.

Base
“Deliver Us from Evil” é uma prova que o cinema escandinavo (onde podemos incluir de “Millennium” a “Let the Right on In”) está vivo, forte, comercial e cada vez mais promissor. O filme é cativante no primeiro acto e emocionante na confrontação do segundo…..8/10

 
José Pedro Lopes

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