Diário do doclisboa: Dia 10 (24/10) – Por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

No penúltimo dia do festival, dois filmes antagónicos, um representando o passado do comentário político que passa por documentário e outro que parece apresentar um futuro optimista para o género em Portugal.

Em “Loin du Vietname” encontramos o preciosismo, a arrogância de vários realizadores franceses em plena guerra do Vietname. Trata-se de um filme de propaganda política com poucos elementos de documentário que o permitam ser exibido neste festival, mas esse ponto já o referi em relação a outros filmes apresentados. É um documento histórico porque mostra a forma como se foi dando a alienação mediática e desinvestimento político que caracterizam a nossa sociedade actual, para além do dramatismo e mentalidade infantil da “counterculture”, quer americana, quer europeia. Apesar de gostar da obra de alguns dos realizadores envolvidos, como filme acaba por não funcionar: desconexo e repetitivo, tornando-se mesmo aborrecido nas suas quase duas horas de duração. É o tipo de filme que dá mau nome ao cinema e aos documentários pelo seu obscurantismo aparentemente informado e pela sua arrogância intelectual, alienando o público em geral em favor da criação de uma elite.

Já “Futebol de Causas”, o segundo filme, mostra que essa elite sem um movimento popular associado, de pouco é capaz. A partir dos protestos académicos em Coimbra nos anos 60 e da ida do Académica à Taça de Portugal, são explorados, por imagens da época e por entrevistas aos vários participantes, os movimentos de oposição ao regime. Com uma imagem cuidada e com o uso de recursos de arquivo criativo, o filme prende-nos e esclarece uma situação que, na altura, por causa da censura, não foi compreendida em toda a sua magnitude. Independente do que possa ter sido, só 5 anos depois e essencialmente devido à revolta militar por causa da Guerra Colonial é que a revolução foi possível. Há que não esquecer que o Cinema é um meio de massas e que, mesmo recusando o imbecilizar e o abastardar dos valores e conceitos, é suposto atingir um número grande da população da qual acaba por viver. Filmes como “Loin du Vietname” acabam por ser mais prejudiciais a longo prazo para os seus temas e para o Cinema. Esperemos que a produção nacional continue no bom caminho.

João Miranda

Últimas