Diário do doclisboa: Dia 8 (22/10) – Por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

“Madam Butterfly / Blind Pig who wants to fly”

Parte da “Secção Riscos” do festival, estes dois filmes só dificilmente se poderiam definir como documentários. O primeiro mostra uma mulher que foi abandonada pelo amante enquanto percorre uma central de autocarros, insegura do que fazer e sem dinheiro suficiente para comprar um bilhete para voltar a casa. Filmado no meio dos passageiros reais dessa central, só esse elemento poderia fazê-lo pretender ser um documentário, já que é obviamente uma obra de ficção. Vê-se como uma curta num qualquer festival de cinema. O segundo levanta ainda mais dúvidas. Assumindo uma imagética surreal e com um script ficcional, o único elemento que o prende ao género documental é um pedaço de filmagem que surge continuamente, como significante das acções das personagens que vão decorrendo no filme. Parece-me difícil argumentar que seja um documentário ou ainda nos arriscávamos a dizer que todos os filmes “baseados em histórias reais” que têm invadido os ecrãs são também documentários. Mais outro que se vê como uma curta experimental num festival de cinema não específico.


Soledad / October Country

“Soledad” segue a rotina de um homem que vive sozinho numa ilha no delta do Paraná, responsável por garantir o crescimento saudável de árvores para uma indústria de celulose. Descoberto quase por acaso pelo realizador quando este preparava outro projecto, concordou na realização deste filme. É uma história de privação e solidão, de uma vida que o levou indiferente e cruel ali, afastado das poucas pessoas que ainda se preocupam com ele e que já por duas vezes o procuraram por o pensarem morto. É pena que a história seja contada por legendas inseridas entre planos, negando a voz ao que parece ser uma pessoa interessante, mas isso não diminui o impacto da realização em mostrar a solidão e a dificuldade de uma tal vivência. No final do filme apenas uma frase, “Living is fucking hard”, sozinho numa ilha, no meio de nada, parece-me que sim.

Donald Mosher fotografou a sua família durante anos, muito antes de Michael Palmieri ter visto essas fotografias e lhe ter proposto a realização deste documentário. É um retrato de uma parte da população norte-americana que não costuma surgir em filmes ou na televisão. A luta de um casal para tentar fazer as coisas bem, sem grandes meios e com muitas das pessoas à sua volta fechadas no seu egoísmo e na sua dor. Debaixo da disfuncionalidade da família, que estamos tão habituados a ver em filmes, esconde-se uma corrente de violência, de abuso, de crime, de ciclos difíceis de quebrar.

Há algo desconfortável em ver este filme, na forma como, por vezes, alguns elementos conseguem formalizar tão bem as suas limitações ou erros, mas persistem em cometê-los de forma inconsequente. É um bom documentário, mas com o qual tive dificuldades em relacionar-me e eventualmente terá sido menos eficaz por isso.


“Driving Men”

Susan Mogul é uma realizadora experimental que procura, neste documentário, a razão pela qual ainda está solteira e a sua relação com os homens. É um filme passado quase exclusivamente em carros, onde entrevista o seu pai, os seus irmãos e alguns ex-amantes, enquanto, pelo meio, vai contado a sua vida, com filmes e fotografias. Com um tom ligeiro e cómico, será fácil de reconhecer na procura da realizadora elementos que nos toquem e com os quais nos identificamos.

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