Diário do doclisboa: Dia 7 (21/10) – Por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Todas as sessões deste dia se prenderam com um retorno ao passado a partir de documentos da época. Em “48”, Susana de Sousa Dias, a partir de fotografias tiradas pela PIDE, conta a história das prisões e a tortura utilizada contra as pessoas que iam contra o regime. É um filme longe de perfeito, com problemas no ritmo e na montagem e um abandono de estilo mesmo no final do filme, mas é um filme importante. Há uma nostalgia parcial em relação ao regime e aos tempos que se viveram que é facciosa e há já muitas pessoas que se esqueceram ou desconhecem por completo o que era viver sob ele. É um filme duro e, como só vemos as fotografias tiradas no momento em que as pessoas foram presas, enquanto estas nos contam algumas das coisas que viveram, acaba por deixar muito à imaginação, tornando-se mais eficiente do que se se limitasse a mostrar ou a recriar essas histórias. Espero que tenha uma distribuição comercial e que seja exibido nas salas de cinema.

Na sessão seguinte, “In the Shadow of the Mountain”, seguimos as cartas do pai da realizadora e imagens da época, na reconstrução da passagem deste pelos sanatórios da Suíça na tentativa de recuperar de tuberculose. Só que a estadia deste coincide com a subida do fascismo ao poder e a segunda guerra mundial, tornando-se uma investigação pessoal em histórica e acabando por pôr em causa a neutralidade suíça perante todas os acontecimentos dessa época. Com um ritmo lento e uma imagem preocupada, o filme percorre a história europeia e da Palestina, e da própria tuberculose, com a enfermidade do pai como fio condutor.

A última sessão fez algo único. A guerra do Vietname foi a primeira guerra mediatizada e reinventada já várias vezes no cinema e televisão. Há imagens icónicas que são tão conhecidas que já foram reapropriadas em outras produções e que é impossível não conhecer. “Indochine” conta a história da antiga Indochina (Vietname, Cambodja e Laos) desde o início do século, sobre administração francesa, até ao final da guerra do Vietname, só com imagens da altura, sem nunca pegar em nenhuma dessas imagens já tão conhecidas. É um filme esclarecedor sobre a evolução política da zona e que faz um esforço por manter a região como foco principal, contando a história de uma forma não-eurocêntrica, como estamos habituados a conhecê-la. Como as filmagens usadas são muitas vezes de filmes de propaganda, há uma grandiosidade nas imagens e uma qualidade artística durante todo o filme, o vermelho das bandeiras é algo verdadeiramente marcante, com a paisagem a assumir um tom monocromático de castanhos ou verdes. Um filme a ver para quem se interessa pelo tema e quer uma visão nova do mesmo.

João Miranda

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