Diário do doclisboa: Dia 6 (20/10) – Por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

The Revolution that Wasn’t

Com começo um ano antes das últimas eleições eleitorais na Rússia, acompanhamos neste documentário o percurso de uma organização política banida e a sua tentativa de participarem nessas eleições. Na realidade são dois filmes dentro de um único: por um lado, temos as maquinações políticas internas contra aliados, as lutas de poder, a fuga à polícia e todas as dificuldades que vão surgindo no percurso; por outro, a história de um pai que abandona o partido e vai procurando um maior refúgio na tradição e na igreja e do seu filho que se vai envolvido mais nesse mesmo partido. No final, é um retrato da sociedade e da política russas actuais, num cenário económico e ideológico falido e da procura no dia-a-dia da forma de lidar com as dificuldades que vão surgindo.

Apesar de realizado por uma mulher, este filme é profundamente masculino, talvez porque não haja muitas mulheres a participarem na política russa, talvez por causa da história pai / filho que fornece o lado mais pessoal à história. Apesar de este ser um festival de documentários, a vontade com que fiquei foi a de acompanhar melhor a história do pai e do filho em movimentos contrários em relação ao partido, algo mais pessoal e que, com um terceiro elemento que, apesar de não ter a ver com essa história, foi incluído quase como se fizesse, faria um filme de ficção mais interessante.

The Future is Now / To Translate

“The Future is Now” tenta, através de algumas entrevistas a um grupo de pessoas, perceber qual a esperança dos cubanos num regime em que a sua figura mais importante se encontra agora ausente. Dá a sensação de estarmos a ver uma galinha sem cabeça a correr, com todas as pessoas viverem sem grandes mudanças e num estado de estase, um compasso de espera antes de algo acontecer. É um filme curioso, com um toque muito pessoal e uma visão mais íntima de alguns dos seus participantes, mas que deixa algumas pontas soltas para quem não conhece a sociedade cubana actual.

O papel e importância da tradução e do tradutor sempre foi alvo de muita discussão e debate, “To Translate” tenta explorar esse tema com a participação de vários tradutores e com paralelismo entre o pão e a sua produção, também parte na vida diária e com variações culturais e locais marcadas, e a música. É um documentário que não arrisca muito, mas eficiente, focando-se mais no tema e nos seus objectivos do que no seu formato. Recomendado a quem se interesse pelo tema ou quem esteja na área, há vários elementos que de certeza farão sorrir ou mesmo rir quem o veja e muito material para pensar.

Behind the rainbow

Lembro-me bem de quando o Nelson Mandela foi solto em 1990. Ainda uns meses antes tinha caído o muro e parecia viver-se um momento de esperança depois de tantos anos de Guerra Fria. A libertação de Mandela era mais um passo para acabar com o Apartheid e para diminuir as desigualdades na África do Sul. Anos depois, esse país parece estar ainda num regime de Apartheid, agora não de discriminação aberta, mas económico. Como se chegou a esta situação? Responder a essa questão é o objectivo de “Behind the Rainbow”.

O filme tem quase duas horas e vinte de duração e percorre com cuidado todo o desenvolvimento do ANC e as escolhas que foram sendo feitas durante e depois do regime, vendo-se nas suas personagens um retrato das diversas correntes políticas e económicas mundiais e as suas influências até se chegar à situação actual. Recorrendo a imagens de arquivo e a entrevistas, este é mais um documentário sólido e ortodoxo, devendo passar num qualquer canal dedicado ao tema e, no máximo, ser editado em DVD; não me parece que vá fazer o circuito de cinema comercial, mesmo com o sucesso que o género tem tido estes anos.

João Miranda

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