Diário do doclisboa: Dia 5 (19/10) – Por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

The Other Song

À procura de uma canção perdida, Saba Dewan tropeça sem querer na história das “Tawaif” na Índia, da sua queda social de cortesãs da nobreza à conotação actual com prostituição, passando pelas últimas décadas da história da Índia, a sua sociedade, cultura, relação entre os sexos, música, religião, política, cada fio contribuindo para uma textura rica e profunda.

Contado em conversas íntimas com antigas tawaif’s, dos músicos que as acompanhavam e de entusiastas da música Urdu, o filme assume sempre um registo de intimidade que nos permite ultrapassar a barreira das diferenças culturais exigentes, embora por vezes se fique com a ideia de que, a não haver essas diferenças, se compreenderiam mais facilmente determinados elementos.

Com um ritmo lento, uma estética cuidada e entrecortado com músicas, somos transportados para uma realidade que não é a nossa e tentamos, quase como num policial, perceber o que se passou com a música perdida e os contornos que a mudança de uma única palavra numa música pode indicar a nível das mudanças sentidas na sociedade à sua volta.

Esta é uma das pérolas deste festival que, com o risco de ser alienante pelo seu ritmo e a sua estranheza, compensa largamente com a sua riqueza e complexidade, apresentada de forma tão simples e intimista.

The Mammas and the papas

Há qualquer coisa de errado neste filme: pretende acompanhar dois casais homossexuais no processo de terem um filho e o educarem entre os quatro, desde as decisões tomadas, as dúvidas que aparecem às diferenças entre uns e outros, mas há toda uma sensação de encenação em toda a sua duração. Desde as casas com uma estética de revista, as fotografias em que só aparecem os quatro e sempre na mesma ocasião, a completa ausência de família e amigos para além de algumas conversas no telemóvel, a ausência de dificuldades entre casais para além da que é preparada várias vezes e acontece a dois terços do filme sem grande explicação, as várias entrevistas que por vezes parecem aparecer cronologicamente desfasadas, a encenação óbvia das distribuições de beijos e dos braços dados, este filme parece ser falso. A não ser falso, é tão asséptico na sua edição e tão irritante no seu uso da banda sonora que acaba por não funcionar. Mais constrangedor foi o riso da audiência cada vez que alguma das personagens entrava no estereótipo do que era suposto ser.
 
João Miranda

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