Diário do doclisboa: Dia 4 (18/10) – Por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Mais um dia de atrasos, desta vez na Culturgest, provocando mais uma sessão perdida. Este tipo de atrasos é inconveniente para a maioria das pessoas que vão ver filmes pontuais no festival, mas torna-se um problema para quem comprou vários bilhetes e perde sessões por eles, apesar de, segundo percebi pela conversa que se desenrolava à minha volta, que o dinheiro das sessões perdidas era devolvido, dando-se a entender que a situação não é nova. Esperemos que não seja um ponto destes que dê má imagem a um festival que não parece merecê-lo.

Petition

Há uma tendência preocupante nos documentários a serem realizados nos últimos anos em que estes não passam de uma amálgama de pornografia emocional, imagens e acções para chocar, discursos semi-inspirados à custa de uma pesada edição (de preferência reduzíveis a sound bytes), tão parciais e pouco documentados que seriam rejeitados em qualquer redacção noticiosa, com exposição reduzida ao primeiro terço e aos últimos momentos do filme, que parece indicar que os documentários se tornaram numa versão condensada de reality tv transposta ao grande ecrã, com personagens reais em situações verdadeiramente preocupantes, com o único propósito de satisfazer a arrogância e/ou a culpa da sociedade ocidental. “Petition” cai nessa categoria.

Apesar do esforço óbvio do realizador em documentar a situação de várias pessoas na China, perde-se nas suas intenções ficando-se em mais um produto de consumo difícil nas duas horas da sua duração, mas do qual se tira pouca informação e onde não se percebe a verdadeira magnitude do problema, nem as suas várias facetas.

Bassidji

“Bassidji” é um esforço para tentar compreender a posição e argumentos de alguns elementos mais radicais do regime iraniano. Apesar do cepticismo ocidental do seu realizador, este conseguiu manter uma posição relativamente neutra, deixando os vários intervenientes defenderem as suas posições com algum grau de sucesso. A clareza e a lógica dos argumentos utilizados contrastam com o extremismo das acções efectuadas. É um filme a ver para se tentar perceber o discurso utilizador por estas facções e para tentar ultrapassar o mindframe ocidental de forma a tentar encontrar novas formas de participação e de diálogo com as novas formas extremistas que se vão desenvolvendo na Europa.

Casa dos Mortos / Videomapping: Aida, Palestine

Estes dois pequenos documentários desenvolvem de forma criativa os temas que focam. O primeiro é baseado num poema de um dos presos da prisão psiquiátrica que vamos descobrindo quer nos seus habitantes, quer na sua arquitectura. Há um lirismo na imagem e no diálogo do filme, apesar das histórias contadas e da violência inerente a tal contexto. O segundo explora a natureza da vivência palestiniana através de mapas que são desenhados conforme se vão relatando as geografias e as histórias, desde o aparecimento de um campo de refugiados a uma simples fuga para um encontro amoroso. Assumindo tão completamente a interpretação dos participantes que a imagem é construída por eles, este é um filme íntimo e dá-nos uma visão muito pessoal das pessoas nesta região.

 
João Miranda

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