Diário do doclisboa: Dia 3 (17/10) – Por João Miranda

(Fotos: Divulgação)
 
Este terceiro dia do Doclisboa ficou marcado pelas salas cheias e por atrasos, os dois no cinema Londres (em salas diferentes); os dois provocados por sessões com o realizador. No Pequeno Auditório da Culturgest, quando nos esticávamos nas questões ao realizador, depois de “Escapeland”, apareceu logo alguém para lembrar a existência de outras sessões; se calhar é isso que falta no Londres.
Wedding and diapers / In terms of perms

Em “Wedding and diapers” vemos, através de entrevistas a 4 casais, as representações de género e de casal no Kosovo moderno, influenciadas pelas suas tradições, pela religião e pelo urbanismo. É um filme enganador na sua simplicidade, revelando muito da cultura e das vivências dos casais desse país. Um interessante objecto de estudo para qualquer sociólogo ou para interessado em estudos de género.
Seguiu-se um filme que não soube aproveitar os seus 14 minutos e ficou-se por uma conversa sem grande sentido, sendo mais interessante a sua sinopse, no site do Doclisboa, que o filme em si.

Escapeland / Gitti

“Escapeland” é um filme que se revela, à primeira vista, encantador, quase como um conto de fadas, mas que, na conversa posterior ao filme com o realizador, se revela perigosamente simplista e até irrealista na sua leitura da situação. Adel é um refugiado sudanês que tem uma relação com Eschel, uma israelita com quem tem já uma filha, com uma segunda a caminho. Com o Sudão em guerra, Adel não tem os papéis necessários para obter o estatuto de cidadania em Israel e vive num campo de refugiados no Egipto. O filme mostra vários obstáculos pelos quais o casal tem de passar para ficar junto. A visão da vida de casal é simplificada e reduzida aos momentos mais felizes do casal, apesar de, como referiu o realizador no final, estes discutirem e terem todos os problemas de um casal normal. Para além disso, Adel é perseguido pela polícia egípcia e tenta efectuar, em plena guerra israelo-libanesa, três travessias ilegais da fronteira de perigo extremo (de onde mal saiu com vida nas duas primeiras), reduzidas a uma aparente simples entrada no território de Israel sem grandes problemas de maior. A ideia com que se fica, após ouvir o realizador, é que este não mostrou respeito suficiente pelas histórias e dificuldades do casal, preferindo a história conto-de-fadas que será possivelmente mais fácil de consumir. Aqui poder-se-ia opor os documentários ao filmes de ficção, mas isso só a custo de ignorar que qualquer narrativa, mesmo que construída sobre eventos reais, é sempre ficcional. Ainda assim, são levantadas várias questões sobre nacionalidade, identidade e fronteiras nesta história de amor.

A vida e aventuras amorosas de uma mulher de quase 70 anos, com uma força e um sentido de humor inspiradores, é o foco de “Gitti”. Após ter colocado um anúncio, Gitti vai combinando uma série de encontros e vai comentando com amigas o progresso da experiência. É uma meia hora que desliza com um sorriso nos lábios, patrocinado pelo encanto de quem sabe viver e o que quer da vida.

Rachel

Há uns anos, o caso de Rachel Corrie encheu os noticiários: a jovem activista americana morreu esmagada por uma retroescavadora israelita para salvar da destruição as casas de palestinianos junto à fronteira com Egipto na faixa de Gaza. “Rachel” pretende passar por mais estúpido do que na realidade é: ao focar-se quase exclusivamente na morte de Rachel Corrie acaba por dar um exemplo a seguir aos activistas e idealistas, mas, ao mesmo tempo, mostra a situação palestina e a forma como o governo israelita tenta manipular a informação e como trata a população palestiniana, demasiado ocupado em contestar a intencionalidade da morte da activista, acaba por assumir situações mais sinistras e contradizer-se nos objectivos pretendidos. Com momentos verdadeiramente inspiradores, este filme arrisca-se em tornar-se cartilha para qualquer pretendente a activista ou resistente: “É possível resistir sem esperança, mas também sem desespero. Resistir é viver” diz Yonathan, um amigo anarquista de Rachel.

Rough Aunties

“Rough Aunties” mostra o trabalho excepcional de um grupo de mulheres incríveis que trabalha para proteger legalmente crianças na região de Durban, África do Sul. É um filme muito duro, que mostra uma sociedade patriarcal em que as mulheres e as crianças são constantemente abusadas. O trabalho feito por estas mulheres e as suas histórias pessoais são impressionantes e as histórias contadas mostram a força delas perante grandes adversidades. Pena é que caia, a dois terços do filme, numa onda auto congratulatória, que transforma o filme quase num reality show e se perde numa emocionalidade pornográfica. Mais uma vez, tendo em conta o tema explorado e a força das histórias contadas, esta tendência acaba por servir mal as pessoas de quem o filme fala e também que o vê.

 
João Miranda

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