Diário do doclisboa: Dia 2 (16/10) – Por João Miranda

(Fotos: Divulgação)
 
Após a minha ausência no primeiro dia desta nova edição do festival dedicado a documentários, este segundo dia, com quatro filmes vistos, caracteriza-se pela ausência: ausência de narrativa no caso dos dois primeiros filmes que constituíram a primeira sessão, “Letter to Uncle Boonmee” e “Lunch Break”, onde a técnica se sobrepôs ao que queria ser demonstrado, acabando por perverter o conceito de documentário e deixando-nos com dois filmes mais adequados a serem exibidos num museu, sendo o primeiro inclusive complemento de uma exposição. O segundo é um filme mais difícil, tendo ficado admirado com as poucas desistências que teve. Imagine-se uma recta com uns 400 metros onde 42 trabalhadores estão a aproveitar o intervalo de almoço (como indica o título) e esta distância ser percorrida em câmara lenta durante uma hora e vinte minutos com os sons da fábrica atrás. A realizadora Sharon Lockhart, uma fotógrafa conhecida, conseguiu finalmente largar os planos fixos que caracterizaram os filmes anteriores, mas parece relutante em largar a fotografia, fazendo um filme que funciona melhor na teoria do que na prática.

Na segunda sessão, “Bucharest, Memory Lost”, a ausência é a da memória e a de um país. Albert Solé, motivado pelo esquecimento provocado pelo Alzheimer do pai, procura registar a sua história como exilado político da Espanha franquista. Um filme que ultrapassa os limites das fronteiras, das línguas e da identidade, Albert, por meio de uma série de entrevistas, fotografias e filmes de arquivo, tenta reconstruir um passado ainda não assumido por Espanha e definir-se no processo. Ainda que não seja inovador no estilo e tenha alguns problemas técnicos, a sua exploração da memória e das vivências políticas pelo indivíduo lembra “Waltz Im Bashir” de Ari Folman, que esteve nos cinemas o ano passado.

A última sessão, “Black Business”, conta a história da ausência de pessoas, levadas por uma força militar criada no início do século nos Camarões e do efeito da ausência de consequências e regras sobre uma força assim. É um filme difícil de se ver, quer pelo tema, quer pelas imagens apresentadas, mas uma história que precisa de ser contada. Lembra a razão pela qual os documentários surgiram: para dizer algo, daí necessitarem da estrutura narrativa que faltou aos primeiros filmes.

João Miranda

Últimas