Distante do circuito de exibição e mesmo das plataformas digitais por ter sido associado a várias polémicas, o franco-tunisiano Abdellatif Kechiche vai voltar ao universo cinéfilo, via Suíça, ao exibir “Mektoub, My Love: Canto Due” na competição oficial do 78° Leopardo de Ouro. De 6 a 16 de agosto, a partir da projeção fora de concurso de “Le Pays D’Arto”, de Tamara Stepanyan, o vencedor da Palma de Ouro de 2013 por “La Vie d’Adèle” terá uma leva de concorrentes de peso para enfrentar. Radu Jude e o seu “Drácula” (produzido por Rodrigo Teixeira, do Brasil), o fabulador georgiano Alexandre Koberidze e a portuguesa Maureen Fazendeiro estarão na competição. Cada um dos 17 concorrentes vai passar pelo crivo do júri presidido pelo cambojano Rithy Pahn.
Na última década, a língua portuguesa saiu coroada com os troféus mais disputados desse evento com vitórias de “Vitalina Varela” (em 2019), “Fantasma Neon” (em 2021) e “Regra 34” (em 2022). Essa maratona de curtas e longas-metragens pertence ao clube seleto das mostras competitivas de maior relevo do planisfério audiovisual, ao lado de Roterdão, Berlim, Cannes, Veneza, San Sebastián e Karlovy Vary. Essa é a linha de frente do Velho Mundo, sendo que as Américas contam com o TIFF, em Toronto, no Canadá, como farol, alvo da atenção plena da Academia de Hollywood, que entrega o Oscar. Têm peso considerável também três festivais já maduros dos EUA: Sundance, Tribeca e Telluride. Locarno já apontou muitas trilhas para a arte, mas viveu tempos difíceis, no fim dos anos 2010, quando deixou de arrebatar os media, por escolhas curatoriais burocráticas. Em 2021, essa fase de vacas magras acabou, com a escaolha do crítico de Zurique (especialista em produções asiáticas) Giona A. Nazzaro como novo diretor artístico. Capaz de citar a filmografia semiológica mais radical de Jean-Luc Godard (1930-2022) com a mesma paixão com que fala de “American Ninja” (1985), ele trouxe novas cores para a programação. Não por acaso, a longa-metragem vencedora da edição que inaugurou a atual curadoria de Giona foi um thriller de artes marciais: “A Vingança É Minha, Todos os Outros Pagam em Dinheiro” (“Seperti Dendam, Rindu Harus Dibayar Tuntas”), que acaba de entrar na Netflix, ao alcance de um clique.
“Os filmes da 78ª edição representam o que está vivo, necessário e ousado no cinema contemporâneo de hoje”, disse Giona em comunicado à imprensa. “Um cinema inteiramente no tempo presente, desprovido de qualquer nostalgia e projetado em direção a um futuro aberto, dinâmico e inclusivo que deve ser imaginado em conjunto, mais uma vez. Um cinema lúdico e perigoso que assume muitos riscos, mas também um cinema que não se esquece de rir e sorrir, e de questionar a história em todos os seus aspectos. Um cinema necessário, portanto, a ser descoberto na escuridão da sala de exibição, onde redescobrimos o profundo senso de prazer estético e nos sentimos parte de uma comunidade. Esses são filmes criados para o cinema e para a experiência coletiva em frente à tela. Mais uma vez, o cinema é agora – e voltado para o futuro”.
Sucessos de Cannes como “Un Simple Accident”, que deu a Palma de 2025 a Jafar Panahi, e “Sentimental Value”, de Joachim Trier, passarão pela Piazza Grande de Locarno, buscando láureas do júri popular. A atração de encerramento escolhida por Giona será “Kiss Of The Spider Woman”, de Bill Condon, que tem elevado o prestígio de Jennifer Lopez desde Sundance.
Títulos da competição Internacional
AS ESTAÇÕES (THE SEASONS) de Maureen Fazendeiro (Portugal)
BOG NEĆE POMOĆI (GOD WILL NOT HELP) de Hana Jušić (Croácia)
DONKEY DAYS de Rosanne Pel (Holanda)
DRACULA de Radu Jude (Roménia)
DRY LEAF de Alexandre Koberidze (Geórgia)
LE BAMBINE (MOSQUITOES) de Valentina Bertani e Nicole Bertani (Itália)
LE LAC de Fabrice Aragno (Suíça)
LINIJE ŽELJE (DESIRE LINES) de Dane Komljen (Sérvia)
MARE’S NEST de Ben Rivers (Reino Unido)
MEKTOUB, MY LOVE: CANTO DUE de Abdellatif Kechiche (França)
SEHNSUCHT IN SANGERHAUSEN (PHANTOMS OF JULY) de Julian Radlmaier (Alemanha)
SOLOMAMMA de Janicke Askevold (Noruega)
SORELLA DI CLAUSURA de Ivana Mladenović (Roménia)
TABI TO HIBI (TWO SEASONS, TWO STRANGERS) de Sho Miyake (Japão)
TALES OF THE WOUNDED LAND de Abbas Fahdel (Líbano)
WHITE SNAIL de Elsa Kremser e Levin Peter (Áustria)
WITH HASAN IN GAZA de Kamal Aljafari (Palestina)

