Longe do circuito exibidor comercial desde 2018, quando lançou um documentário sobre o líder uruguaio Pepe Mujica, o realizador sérvio Emir Kusturica deu o pontapé de saída para as atividades da 17ª edição do seu festival de cinema particular, Küstendorf, realizado no seu país natal, sempre em janeiro, num resort na vila de Mokra Gora, a cerca de três horas de Belgrado.
Vencedor de duas Palmas de Ouro, dadas a ele por “When Father Was Away on Business” (1985) e por “Underground” (1995), o cineasta escolheu Matteo Garrone para abrir a programação com uma projeção de “Io Capitano”. A sua projeção será no dia 23, data em que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anuncia os concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Internacional – prémio que pode, e deve, ter Garrone na competição. Logo após a sessão dessa fábula de aventura sobre imigrantes senegaleses, o italiano conversa com Kusturica, em público, numa masterclass.
Em competição em Küstendorf, a seleção oficial deste ano reúne uma série de curtas-metragens de diferentes cantos do planeta. O programa inicial reúne: “I Promise You Paradise”, de Morad Mostafa; Hikuri, de Sandra Ovilla León; “On The Silk Road”, de Sherzod Nazarov; “Silhouette”, de Savva Dolomanov; “Duck Roast”, de Jelica Jerinic; “Violet Country”, de Mikhail Gorobchuk. O segundo programa inclui “Lemon Tree”, de Rachel Walden; “Short Cut Grass”, de Davi Graso; “Bye, Bye Bowser”, de Jamin Baumgartner; “The Last Shift”, de Askr Unaev; e “9-5”, de Masa Sarovic. Já o último bloco das curtas traz “Highway of a Broken Heart”, de Nikos Kyritsis; “Madden”, de Malin Ingrid Johansson; “mise à nu”, de Simon Maria Kubiena e Lea Marie Lembke; “Shanti”, de Vivek Rai; “Only The Devil Hates Water”, de Lidija Mojsovska; e “The Creature”, de Damian Kosowski.

Marca autoral no cinema independente, Kusturica é músico, integrando a banda The No Smoking Orchestra e promete levar uma série de apresentações musicais para Küstendorf, sem se desligar da produção atual (e autoral) do cinema. Para a seção Contemporary Trends, ele leva “Comandante”, de Edoardo De Angelis; “Lost Country”, de Vladimir Perisic; “The Last Motorship”, de Ilya Zhektyakov; e “Disco Boy”, de Giacomo Abbruzzese.
“Olho para o cinema feito hoje, procurando expressões de luta contra a inércia”, disse Kusturica ao C7nema na sua passagem pelo Brasil, em 2017, no festival Mimo, onde deu um espétaculo com a No Smoking Orchestra, tocando temas como “Bubamara”. “O cinema das Américas foi fundamental para a construção do meu olhar, uma vez que a minha cabeça foi muito influenciada pela Nova Hollywood, num período dos anos 1970 em que filmes inquietos davam receitas, sem fazer concessões para agradar. ‘Taxi Driver’ revelou muito para a minha geração sobre as possibilidades das narrativas. Mas a minha cabeça também foi influenciada pelo vodca”.
A partir da curadoria de Kusturica e a sua equipa, serão exibidos ainda em Küstendorf clássicos como “Greed” (1924), de Erich von Stroheim; “8 ½” (1963), de Fellini; “Wishing Tree” (1976), de Tengiz Abuladze; e “On the Waterfront” (1954), de Elia Kazan. Haverá ainda uma sessão de novos autores, da qual fazem parte “Desperate For Marriage”, de Sonya Karpunina; “A Gaza Weekend”, de Basil Khalil; “Terrestrial Verses”, de Ali Asgari e Alireza Khatami; e “My Swiss Army”, de Luka Popadic.

