A 1ª edição do Sonica Ekrano – Cinema Documental e as Músicas das Margens, decorre entre 9 e 18 de setembro e traz um variado e estimulante leque de propostas cinematográficas ligadas à música. O nome significa “tela de som” em Esperanto. Descentralizando o espaço e cruzando o rio Tejo, o festival decorre no Barreiro (Fórum Cultural José Figueiredo, Biblioteca Municipal) e na Moita (Auditório Municipal Augusto Cabrita).
Entre os destaques, filmes com músicos como Robbie Basho, Swans, Acid Mothers Temple, Conny Plank e Arvo Pärt, entre outros. Estimulado com a bela mostra que inclui propostas tão diversas, o C7nema conversou com o diretor e programador Rui Dâmaso.
Dentro das propostas de festivais independentes da região de Lisboa vocês sugerem uma especialmente ousada, onde os nomes mais sonantes, como Conny Plank, Swans e Arvo Pärt são conhecidos de um público mais alternativo. Como vê a importância de potencializar estas propostas?
Não diria ‘um’ público mais alternativo mas, quando muito, ‘vários’ públicos alternativos – tal como, na minha opinião, atualmente não existe ‘um’ ‘mainstream’ mas vários, coabitando em paralelo – e basta olhar para os três nomes que referencias para perceber que provém de circuitos completamente diferentes: a música eletrónica e a ‘pop’ aventureira dos anos 70/80, o ‘rock’ alternativo e a música clássica. E, de qualquer forma, o Arvo Pärt é provavelmente o compositor mais reconhecido da segunda metade do séc. XX.
A verdade é que a premissa por detrás deste SONICA EKRANO é semelhante à que sustenta o OUT.FEST, o festival de música que organizamos há 17 anos: dar a conhecer o que tem menos hipóteses de ser conhecido, celebrar músicos e movimentos que são de importância fulcral – mesmo que essa importância se faça sentir apenas para dez, mil ou 100 mil pessoas no mundo inteiro.
O que procuramos é dar espaço ao que, na nossa opinião, precisa e merece esse espaço, mas as nossas escolhas de programação não têm como bússola a obscuridade ou o carácter alternativo como fim último. O que é importante é fazer uso da forma como ouvimos e olhamos para estes filmes e depois perceber se há amplas oportunidades para eles no circuito nacional.
Por outras palavras ainda: a música é boa? Poderia ser mais conhecida? O filme é interessante? Se a resposta a todas estas questões é sim, e se depois disso concluímos que nunca passou pelo país, ou que passou só uma ou duas vezes, o nosso dever é tentar programar.
A diversidade temática acompanha uma variação geográfica – onde há um filme retratando o “extreme metal” no Sudeste asiático e um grupo de “rappers” no Colorado…
Sim, e há um realizador alemão que acompanha um músico indiano a casa, há um filme que retrata uma colaboração entre uma banda argentina e outra japonesa, para mencionar mais alguns casos.
Estas diversidades existem e creio que parte do trabalho de programar é estar necessariamente atento à complexidade e abundância de formas de estar, viver e fazer em todos os recantos do mundo – o qual, mesmo estando hoje mais pequeno do que alguma vez foi, continua a ser vasto, a ter determinantes culturais próprias dos lugares.
Este não é um festival sobre um género de música em particular nem sobre um país ou um continente; onde houver música que merece ser mais conhecida e onde houver cinema que a documente, é onde queremos estar.
Há uma ênfase na música eletrónica – em especial de algumas mulheres desconhecidas cuja contribuição vêm sendo recuperadas…
É um sinal – e um bom sinal – dos tempos. Por muito tarde que o reconhecimento tenha chegado, o que é facto é que estas artistas estão finalmente a ocupar o lugar histórico que merecem; quanto à música eletrónica em si, a sua presença também reflete o facto de, na atualidade, o grosso da produção musical de alguma forma estar associado às novas tecnologias – e no festival temos a oportunidade de contar também o caminho histórico destas ferramentas eletrónicas até à quase ubiquidade de hoje.
E apesar de, nesta primeira edição, termos optado por programar apenas filmes recentes (realizados nos últimos seis anos), é interessante perceber que conseguimos retratar muitas épocas, géneros e continentes – o que nos faz sentir que a produção documental na área da música está de ótima saúde e nos deixa entusiasmados para próximas edições.
A programação completa do festival pode ser encontrada em www.sonicaekrano.com

