Prazer, Camaradas!: José Filipe Costa exuma as cicatrizes do 25 de Abril

“Prazer, Camaradas’" estreia nos cinemas a 20 de maio

(Fotos: Divulgação)

Praticamente dois anos depois de estrear no Festival de Locarno, com uma pandemia pelo meio, José Filipe Costa vê finalmente o seu “Prazer, Camaradas!’” chegar às salas comercias . É ele o realizador de “Linha Vermelha (2012) e que agora assina um misto de documentário ficção, poesia e lamento pelas feridas que a Revolução dos Cravos nos fez ver, em 1974. 

O realizador exibe uma radiografia, em forma de jogral,  da revolução de abril, dando voz aos estrangeiros que chegaram à Península Ibérica após a agitação revolucionária, a fim de participarem da convulsão política daquela pátria. Mas o machismo, a submissão e múltiplas modalidades de moralismo atrapalharam este grupo de outras terras.

José Filipe Costa |Foto por Joana Linda

Falámos com José Filipe Costa em dois momentos dessa sua caminhada até à estreia comercial. A primeira vez foi em 2019, quando o filme chegou a Locarno. A segunda agora, maio de 2021. Essas conversas foram condensadas numa entrevista única, que podem ler abaixo.

Depois de uma avaliação mais analítica a partir das imagens de arquivo no “Linha Vermelha”, da verdade das imagens do filme do Harlan como “documento histórico”, encontrou no “Prazer Camaradas”, num registo mais próximo da docuficção, outra forma de auto-reflexão sobre a revolução. Qual a importância disso para nós portugueses e, acima de tudo, o que procura nessa investigação, exposição e recriação desses tempos?

Procurei dramatizar memórias que nos mostrassem onde estamos nós hoje, em termos de costumes, comportamentos, moral sexual. Acredito que não há um passado desligado daquilo que somos no presente e brincar com essas memórias foi uma forma de revelar como nos situamos no presente. Como estamos em relação às desigualdades homem/mulher? Estamos dispostos a partilhar as nossas intimidades, quando há violência e opressão? É possível sermos outros num contexto revolucionário? Até  que ponto a liberdade está a passar por aqui, quando nos engajamos numa revolução política?

Há uma cena em ‘Prazer, Camaradas!’ na qual se declama um poema: um velho português fala dos encantos femininos e transborda lirismo num exercício de entroncamento de tempos e vivências. De que maneira o presente das suas personagens reflete o passado de “revoluções” da Europa?

As personagens de “Prazer, Camaradas!” dramatizam histórias da Revolução dos Cravos no filme como se ela estivesse a acontecer hoje. E é neste jogo entre o passado e o presente que celebram as conquistas das revoluções, mas também relembram o que ficou por alcançar, na esfera da intimidade, do papel da mulher, etc.

Prazer, Camaradas!”

Existe uma avaliação concreta de mudança e novas liberdades conquistadas por Abril, mas simultaneamente um mito de que essa mesma liberdade foi igual para todos. O seu filme, toca nisso através de tópicos como o machismo, a submissão e múltiplas modalidades de moralismo. Partilha um pouco aquela velha frase saída do filme do Dušan Makavejev (WR: Mistérios do Organismo) que não existe uma verdadeira revolução sem revolução sexual?

O filme parte um pouco dessa mesma premissa – não existe uma verdadeira revolução sem revolução sexual – ao focar o trabalho de Wilhelm Reich, o chamado pai da revolução sexual. O filme retrata como muitos estrangeiros e portugueses exilados vinham para as cooperativas e para as aldeias com estas leituras radicais, acreditando numa outra moral sexual. E foi aqui que se deram choques. Os universos tão diferentes de estrangeiros e portugueses aldeãos colidiram e daqui nasceram encontros e desencontros. Estes choques produziram energias que abriram mentalidades. Para os  estrangeiros a revolução também tinha de ocorrer dentro de casa, à mesa ou na cama. E tentavam chamar a atenção para isso.  Uma portuguesa que fizera o curso de assistente social e vinha de Lisboa para as cooperativas, conta que uma vez questionou uma mulher: “porque se deixa bater pelo seu marido?” E esta mulher dizia que se se revoltasse, tinha a aldeia toda contra si.

Há uma frase no filme na qual um motorista que fala inglês com sotaque londrino diz que ‘revoluções não pareciam algo europeu e sim uma condição da América Latina’. De que maneira essa fala contagia o seu olhar sobre o Velho Mundo. Que Europa está em cena noseu filme? 

É uma Europa que em 1974 não esperava ver acontecer uma revolução em Portugal. Muitos estrangeiros vieram então ver a revolução acontecer ao vivo e a cores, com a esperança de ver no país uma abertura e a emancipação dos “amanhãs que cantam”. Prazer, Camaradas dramatiza esses encontros e tensões entre os europeus que vinham do norte e os europeus das aldeias, onde se situavam as cooperativas, muitos deles analfabetos, depois de 48 anos de ditadura. As diversas “Europas” encontravam-se em choque e descobriam-se mutuamente.

O que esta narrativa, na forma daquilo que o escritor Julio Cortázar chamava de “Jogo da Amarelinha”… ou seja, um jogo de armar… entre factos, fabulações e memórias… revela a si sobre o trânsito entre documentário e ficção?

Prazer, Camaradas!” está nas fronteiras entre documentário e ficção, entre passado e presente. Ao pedir a atores não profissionais nos sessenta e setenta anos para fazerem de conta que eram jovens, descobrimos que o passado não está longe, está no presente e que as nossas ficções sobre o passado são muito atuais, são produtivas e efetivas.

Faz agora 2 anos que o filme estreou em Locarno. A pandemia certamente afetou a estreia do filme em Portugal, mas mesmo sem ela os filmes nacionais encontram dificuldades em estrear em sala. Encontrou essas dificuldades para estrear o seu filme?

Houve várias dificuldades que enfrentamos para estrear o filme. Muitos exibidores tinham muitos filmes em carteira que não tinham podido estrear, por causa da pandemia. E portanto, havia essa concorrência já pré-estabelecida.  A sala tem perdido espectadores, e gostaríamos que a estreia do filme coincidisse com um convite a ver experimentar a sala escura, em comunhão com outros espectadores. E não nos iludamos, realmente os impedimentos são maiores por ser um filme português. Há ainda um estigma que acompanha o facto de um filme ser português. 

O que se segue depois deste “Prazer, Camaradas“. Já tem outro projeto em desenvolvimento? (Se sim, pode falar nele?)

Sim, está em fase de finalização. Chama-se Uma História do Espectador de Cinema e a série/documentário dá conta de como desde as projecções dos primeiros tempos à moderna proliferação de ecrãs, o espectador foi experimentando o cinema de diversas maneiras, numa sala de arte e ensaio ou num multiplex, em silêncio devoto ou em interacção com o ecrã, num telemóvel ou num “tablet”. O que significam todas estas mudanças? De que forma a tecnologia foi mudando a experiência do espectador de cinema? Em que medida se tentou conhecer o funcionamento mental do espectador? Como se tentou prever e controlar o seu comportamento?

(questões por Rodrigo Fonseca e Jorge Pereira)


Prazer, Camaradas!, de José Filipe Costa – uma produção e distribuição Uma Pedra no Sapato – estreia dia 20 de Maio nas cidades portuguesas, nomeadamente, em Lisboa (Cinema City Alvalade, UCI El Corte Inglés), Porto (Cinema Trindade, UCI Arrábida 20), Braga (Cineplace Braga), Albufeira (Cineplace Algarve Shopping Albufeira), Coimbra (Cinema NOS Alma) e Setúbal (Cinema City Setúbal).

Últimas