Com o xadrez de novo na ribalta, fruto do sucesso de “Gambito de Dama”, o primeiro filme de Tatia Skhirtladze, em parceria com Anna Khazaradze, ganhou uma atenção especial.
“Glory to the Queen” (Glória à Rainha) estreou em setembro passado, um mês antes da série da Netflix surgir, e tem andado numa verdadeira tournée pelos festivais de cinema globais, com passagens no CinéDOC-Tbilisi 2020 e É Tudo Verdade, no Brasil.
Natural da Geórgia, mas radicada na Áustria, artista com inúmeras instalações a moverem o mundo da arte, Tatia segue neste “Glória à Rainha” quatro pioneiras do xadrez – Nona Gaprindashvili, Maia Chiburdanidze, Nana Alexandria e Nana Ioseliani -, que nas Olimpíadas em 1982, decorridas em Lucerna, Suíça, conquistaram o ouro pela União Soviética.
“A minha identificação com as figuras foi definitivamente muito mais como mulheres e o seu sucesso como jogadoras de xadrez, mas também, é claro, com a minha própria experiência ao crescer na União Soviética e mais especificamente na Geórgia“, disse-nos a cineasta, numa entrevista que podem ler abaixo na integra..
Este projeto foi inicialmente conhecido como “The Encounter”, mas depois mudou para “Glory to the Queen”. Algum motivo particular para essa mudança.?
“The Encounter” era o título provisório, pois sabia que as quatro jogadoras de xadrez, protagonistas do filme, se encontrariam depois de mais de 25 anos. Teria mantido este título se esse encontro final ou “confronto” fosse o ponto principal do filme. Mas, como vemos, não foi esse o caso.
“Glória à Rainha” é uma frase que você pode ver escrita no póster do último arquivo em preto e branco quando uma das protagonistas, Nona Gaprindashivili, chega à estação de comboio após ter vencido o Campeonato Mundial e é recebida pela multidão . Este título parece uma boa escolha, pois representa para mim a monumentalidade da última cena com quatro mulheres a descerem a plataforma juntas, e é claro que se relaciona com o jogo de xadrez também – embora seja interessante notar que em georgiano, como muitas línguas, a própria figura do xadrez não é referida como a Rainha“ e nem tem uma conotação feminina.
Como foi a sua colaboração de trabalho com a Anna Khazaradze. Houve separação de tarefas? Ou houve algo desde o início que pareceu orgânico na maneira como deveriam fazer este documentário?
Anna Khazaradze entrou no filme depois de eu já ter começado a desenvolvê-lo. Ela descobriu o meu projeto e procurou-me para produzi-lo. Mais tarde, decidimos tornar-nos co-diretoras para ter certeza de que o filme acontecia – e o papel de Anna foi muito essencial aqui. O envolvimento de Anna como uma mulher de uma geração um pouco mais jovem do que a minha tinha um pouco mais de distanciamento do projeto. Ela tinha uma visão mais objetiva sobre o tema porque era mais uma parte do passado para ela e também um outro tipo de relação com as protagonistas.
Desde o início, ficou claro para mim que as quatro protagonistas foram tão bem treinadas para “atuar“ em frente às câmara, que só tive que deixá-las fazer a sua performance.
Quão difícil foi reunir todas estas mulheres carismáticas, tantos anos depois do seu sucesso? E como foi o processo de procurar imagens de arquivo e depois misturá-las com as entrevistas que vemos no filme?
Tive a sorte de em 2018 decorrerem as Olimpíadas de Xadrez em Batumi, na Geórgia e Nona,as duas Nanas e a Maia foram contratadas como anfitriãs de honra. Este momento especial tornou relativamente fácil reunir as minhas quatro protagonistas. E também sabiam que se tratava de uma espécie de momento histórico.
Em relação ao material de arquivo, o historiador do xadrez georgiano David Gurgenidze apoiou-me, dando-me acesso direto aos arquivos que possuía. Nana Alexandria e Nona Gaprindashvili também me ajudaram e finalmente encontrei as imagens restantes no arquivo documental “Mematiane“, as quais eram mais “pessoais“ do que as outras fontes.
Combinar imagens do presente com as do passado foi fácil e depois usei minha voz para explicar o tempo e o contexto. Essa parte foi mais desafiaante e tive o apoio da minha coautora Ina Ivanceanu e da editora Petra Zöpnek.
Quando vi este documentário, lembrei-me de outro que vi este ano em Roterdão: ‘The Witches of the Orient‘, sobre a seleção japonesa de voleibol feminino que conquistou o ouro olímpico em 1964. Tal como no seu filme, também conhecemos o agora e o antes, sobre como estas mulheres fizeram história. Quão importante é falar sobre essas histórias femininas desconhecidas?
É muito importante conhecer e falar sobre essas histórias femininas. Neste caso particular, as minhas quatro protagonistas foram / são as melhores “jogadoras“ do meu país e a memória delas está a apagar-se.
“Gambito de Dama”, mesmo com alguns erros, como dizer que a Nona nunca jogou contra homens, foi um sucesso. Esse sucesso mudou de alguma forma a maneira como seu documentário foi construído ou promovido? Viu a série? Gostou?
Vi e achei-a bem feita, mesmo que tenha acabado por brincar um pouco demais com os clichês sobre as mulheres no mundo do xadrez dominado pelos homens. Além disso, a figura do génio viciado em drogas de Beth Harmon era um pouco exagerada. Talvez fosse um pouco surpreendente que uma série tão bem pesquisada cometesse o erro de afirmar que a Nona nunca havia jogado contra um homem. Mas, ao mesmo tempo, e talvez paradoxalmente, o facto deles a terem mencionado já indica o quão bem pesquisada foi.
O sucesso de “Gambito de Dama” não mudou nada na forma como o meu documentário foi feito, já que estreou em setembro, um mês antes da série ir para o ar, em outubro de 2021.
Mas em termos de promoção, é claro que ajudou a ter esse discurso sobre as mulheres no xadrez, e a minha agência de vendas muitas vezes refere-se à minha protagonista mais velha, Nona Gaprindashvili, como um Gambito de Dama da vida real.
Além de falar sobre estas mulheres, também abordou a Geórgia na era da União Soviética. Isso era importante para si, talvez, por uma questão de identidade além URSS?
Sim, a minha identificação com as figuras foi definitivamente muito mais como mulheres e o seu sucesso como jogadoras de xadrez, mas também, é claro, com a minha própria experiência ao crescer na União Soviética e mais especificamente na Geórgia, que também está de alguma forma implicada nesta história.
Os filmes georgianos estão em toda parte e com sucesso. Tivemos “The Beginning” a vencer San Sebastian, “What Do We See When We Look at the Sky?”, estreado em Berlim, e mesmo sendo dirigido por uma russa, “Bebia, à mon seul désir”, que esteve na competição em Roterdão é uma produção da Geórgia. Agora temos o seu filme, entrando no circuito de festivais ligados ao cinema documental. Podemos dizer que há um redespertar do cinema georgiano?
Definitivamente, há cineastas interessantes na Geórgia. Talvez o cinema seja o meio para refletir e até imaginar um tipo único de realidade? Quanto a mim, vivo há muito tempo na Áustria, este é o meu primeiro filme e talvez seja mais uma realizadora austríaca do que georgiana.
Já está a trabalhar num novo filme? Pode falar um pouco dele?
Estou a pensar fazer um documentário híbrido sobre um assassinato, que começaria a partir das filmagens de “Glory to the Queen“, como aconteceu na realidade. Não sei se realmente vou conseguir, mas se sim, então posso chamá-lo com certeza “The Encounter”








