Ugo Giorgetti, o iluminista sentimental, disseca Paul Singer

(Fotos: Divulgação)

Banhos de descarrego, capazes de curar a ressaca dos desenganos morais e políticos sofridos na sua nação dos anos 1960 (em plena ditadura) para cá, os filmes de Ugo Giorgetti têm uma alquimia singular no cinema brasileiro, ao unir denúncia, melancolia e doçura, trançando ironia e saudosismo. É um iluminista sentimental. Às vezes, ele é mais ácido, como em “Festa”, ganhador do Kikito de melhor filme no Festival de Gramado de 1989, e às vezes, combina sociologia com a poesia, como nas duas longas-metragens da cinessérie “Boleiros” (1998-2006), sobre os bastidores do futebol. A sua obra-prima, “O Príncipe” (2002), dono de um dos melhores roteiros já escritos no Brasil, é a radiografia mais precisa do desencanto intelectual do seu povo, construído como uma hábil manha para dosar amarguras. Essa mesma manha, aplicada ao mesmo universo, regressa agora no seu filme mais recente: o documentário “Paul Singer, Uma Utopia Militante”, que integra o cardápio do festival É Tudo Verdade, online.

Nele, Giorgetti promove uma delicada investigação sobre o autor de “Ensaios sobre Economia Solidária”. Nascido em 1932, em Viena, na Áustria, e morto em 2018, chegou às Américas ainda criança, em 1940, e foi um pilar de resistência teórica na vida intelectual de São Paulo nos últimos setenta anos. A experiência operária e a militância no Partido Socialista Brasileiro (PSB) fez nascer em Singer o interesse pela Economia, cujos estudos iniciaram-se com leituras de Marx, Engels e Rosa Luxemburgo. A imersão documental de Giorgetti no seu legado debruça-se sobre sua trajetória na liderança de movimentos económicos e sobre sua luta em prol da educação. A partir deste domingo, ele pode ser visto na Plataforma Sesc Digital, onde fica até o encerramento do evento, no dia 18. Na entrevista a seguir, Ugo desenha para o C7nema um rascunho das crises de sua nação.

Ugo Giorgetti

Paul Singer equacionou dilemas económicos no Brasil, na defesa da Economia Solidária. Mas qual seria o Brasil que você registou neste filme sobre a sua teoria crítica, que se impõe pela engenharia agilíssima da sua montagem?

É o Brasil de sempre, que difere daquilo que o (estadista) Oswaldo Aranha falava. Ele dizia que “o Brasil é um deserto de homens e ideias”. Singer é a prova de que sempre tivemos gente pensando… e pensando muito. Ele é um herdeiro dos iluministas. Foi, antes de tudo, um professor, que buscava melhorar a vida das pessoas com a generosidade de compartilhar as suas ideias. A sua utopia é militante. Aliás, ele prova que a utopia é algo factível. Lembro-me da figura dele sempre a partir da ternura. Já no fim da sua vida, mesmo fragilizado, sempre me conduzia até a porta.

A história das pelejas intelectuais de Singer abraça a cidade de São Paulo como personagem. Aliás, a cidade tem protagonismo em todos os seus filmes. Qual é a SP de Singer e o quanto ela se aproxima da carga melancólica da SP das suas outras longas?

Singer suspeitava do ensino universitário como sendo uma formação burguesa, o que fez com ele, já autodidata, só entrasse para uma formação formal tarde, aos 26, 27 anos. Mas a Universidade de São Paulo (USP) que ele encontrou não é muito diferente da USP que frequentei, quando tinha os meus 18 anos. Era um espaço de muitos intelectuais. E a gente encontrava muitas figuras que marcaram a produção intelectual e artística da cidade andando pelo centro, em bares. Era uma época em que podias virar a noite no centro. Era uma outra cidade, que lamento ter entrado em decadência. Mas, apesar de tudo, sobretudo dos seus preconceitos, São Paulo é hospitaleira. Ela não elimina o que vem de fora. Não sei definir-te qual é o verdadeiro brasileiro que está na minha obra, mas sei que todos os brasileiros estão aqui. Todos os sotaques estão em São Paulo, incluindo o de Singer.

Como o filme foi operacionalizado?

A minha produtora está aberta a projetos. Um grupo de admiradores de Singer (entre eles Fernando Kleiman, Marcos Barreto, Raissa Albuquerque) procuraram-me para falar dele. Havia material gravado em que ele falava na primeira pessoa de si. O maior mérito é que esse filme foi feito com R$ 125 mil (18,45 mil euros) captados por crowdfunding, como muita gente trabalhando de graça, engajados no projeto. É a maneira que Singer pensava e seria a maneira como ele faria um filme.

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