Viagem aos meandros da justiça norte-americana com Antonio Méndez Esparza

(Fotos: Divulgação)

Com dois dramas baseados num forte componente documental –  “Aquí y Allá“, vencedor da Semana da Crítica em Cannes em 2012; e “Life and Nothing More” (2017) – o espanhol Antonio Méndez Esparza regressou ao cinema com um documentário assumido, “Courtroom 3H”.

Nele estamos na Flórida, mais propriamente no Tribunal de Família do Tallahassee, especializado em casos judiciais que envolvem menores. É o único tribunal dos Estados Unidos que trata de questões relacionadas a filhos e pais e é aqui que passam muitos casos de maus tratos, abandono ou negligência em relação aos menores.

Pegando e inspirando-se nas palavras do escritor James Baldwin – “Se alguém realmente quer saber como a justiça é administrada num país, vá até os desprotegidos e ouça os seus testemunhos”-,  Antonio Méndez Esparza juntou duas câmaras e filmou mais de 180 horas neste tribunal, produzindo um documentário que acompanha relatos únicos, a maioria das vezes dramáticos, de quem tem de lidar com a justiça. 

Courtroom 3H

No cinema que fiz até agora fui-me sempre aproximando do registo documental, mas senti sempre uma enorme frustração, limites na tentativa de captar a realidade. Este novo filme, que continua de alguma forma os anteriores, em particular o último, é uma forma honesta de retratar a realidade. De poder retratar uma amplitude enorme de casos e de famílias problemáticas. Era algo que queria fazer”, disse-nos o realizador em San Sebastián, onde apresentou “Courtroom 3H” em estreia mundial.

Realidade e atuação

As imagens que assistimos no documentário foram todas captadas pelo cineasta no tribunal, conseguindo a permissão das pessoas filmadas e das autoridades para isso. Claro que, com as câmaras expostas perante os objetos filmados, isso podia facilmente condicioná-los, perdendo-se assim a tal “realidade” que Esparza falou. “Tínhamos algumas preocupações e a primeira era perceber se os advogados e os juízes estavam a atuar”, explica Esparza, que acredita que devido à tensão das situações rapidamente os objetos filmados se esquecem delas.

Outro dos problemas do projeto era a seleção do material recolhido, ou seja, das 180 horas, Antonio Méndez Esparza condensou tudo em 115 minutos intensos. “Poderíamos ter feito vários filmes com o material filmado”, diz-nos, sublinhando que o mais complexo no meio desta imensidão de material é encontrar o filme que desejas: “Num filme de ficção muitas vezes acreditas que és a melhor pessoa para a contar, escolhes atores, escreveste a história, ela é tua, etc. Aqui é o contrário. Tens o material e tens de encontrar a história. Que filme vou fazer? Descobrir o filme que há aqui é um processo muito distinto (…) vais abraçando e rejeitando o material. É uma relação muito crítica. Aqui não existia nenhum arco [narrativo] teríamos nós de o criar. E teria de ser um arco estrutural, jurídico. Isso custou-nos tempos, até que no final tomamos a decisão de separar o filme em dois, tentando que a primeira parte tenha todo um vínculo emocional. Já o segundo atuando como um thriller”. 

Um espanhol na América

Nasceu em Madrid mas a vida de Antonio Méndez Esparza levou-o até ao Tallahassee, onde normalmente dá aulas de cinema. Perguntamos-lhe sobre o que pensam os seus alunos dos seus filmes, ao que ele nos responde sem rodeios e com risos: “Não os veem, não lhes interessa”.  Na verdade, o realizador acha que cada vez mais existe uma separação do cinema que anda pelos festivais e aquele mais comercial, que chega às salas. E mais… agora vivem-se tempos de Netflix, o que também tendem a afastar mais os seus alunos do chamado “cinema de autor”: “Não é só a Netflix e o streaming. Antes disso já os jovens apenas se interessavam pelo cinema de ‘Os Vingadores’ e outros que tal”.

Curiosamente, e com 180 horas de material, Antonio Méndez Esparza nunca pensou numa série de TV, mas não descarta a ideia de um dia trabalhar para uma plataforma: “Se chegar uma proposta, logo respondo”, diz-nos entre risos, manifestando que não tem nada contra o streaming, mas que crê que a Netflix é “demasiado grande” e que “não promove” decentemente tudo o que lança.

O futuro

Depois deste projeto documental, Antonio Méndez Esparza vai regressar à ficção com a adaptação da novela “Que Ninguém Durma”, de  Juan José Millás, uma história de  amor e vingança. O projeto será filmado em Espanha: “A vida leva-te a fazer os filmes que podes. Neste momento queríamos fazer um filme de ficção grande, mas é muito difícil.  Por isso faremos outra coisa. Também é verdade que quero trabalhar com grandes atores, mas às vezes tenho dúvidas. Até agora tenho tido muita sorte e sido muito livre, feito o que quero. Tenho um produtor fabuloso. Sou livre. Mas tenho medo que num novo filme  [com mais orçamento] isso acabe“. 

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