Quando se fala em Vincent Macaigne, muitas vezes o seu nome está associado a pequenas produções independentes francesas, onde destacamos “A Batalha de Solferino“, “A Rapariga de 14 de Julho“, “Eden” e “Branca Como a Neve“.
Ciente disso, o IndieLisboa decidiu homenageá-lo em 2016 como um “Herói Independente”, uma experiência que o próprio ator nos definiu como “genial”.
Presente nas salas nacionais em “Festa de Família”, onde divide o ecrã com Catherine Deneuve, Emmanuelle Bercot e Cédric Khan, que também realiza, Macaigne – muitas vezes descrito como o tipo com o olhar “alucinado” – garante-nos que “nunca fumou um charro na vida”, mas que se inspirou em muitos conhecidos que fazem disso a sua vida para criar a personagem de Romain, um dos filhos de Deneuve, que se reúnem numa casa para a festa de aniversário da mãe. Aspirante a realizador, Romain quer filmar a festa em modo documentário, mas o caos instala-se, e ele vê-se no centro de uma enorme tempestade familiar.
Foi em Paris que nos encontramos com o ator, que nos explicou como foi trabalhar nesta produção, como se sentiu a atuar ao lado do “Arco do Triunfo” e dos seus planos para o futuro.
Antes de mais, foi o “Herói Independente” do IndieLisboa em 2016. Como foi essa experiência?
Foi genial. Adoro Portugal e vou lá muitas vezes sozinho e sem qualquer razão explícita. Foi excelente ter uma retrospectiva lá e o trabalho feito por esse festival é alucinante.
E era ainda muito novo para ter uma retrospetiva… [risos]
[risos] Sim. Foi ótimo e, ao mesmo tempo, foi uma experiência bizarra, ver todos os meus filmes, foi um pouco melancólico.
Sobretudo penso que o IndieLisboa é um festival muito preciso, específico. Muitas vezes os festivais e os filmes independentes tornam-se uma moda, mas ali não senti que seguissem essa moda do “indie” [como se usa nos EUA]. Acho isso muito raro dentro da Europa. É um festival único.

E como foi trabalhar com Cédric Kahn neste “Festa de Família”?
Foi também ótimo. O Cédric é muito exigente no trabalho e achei isso muito vivificante, não tenho outra palavra para descrever a minha experiência.
Acha que o facto do Cédric ser também ator, ajuda-a nessa relação e exigência com os atores dos seus filmes?
Sim. Tenho trabalhado muito com atores-realizadores, como o Louis Garrel. E terminei recentemente de filmar um projeto com o Laurent Lafitte, onde ele também atua.
O Cédric tem uma confiança total no seu trabalho, o que acho excecional. Tem essa confiança nas decisões em momentos extremos e transforma-os em algo divertido. Ele tem uma conexão muito particular com a vida, não sei bem explicar….
E como foi a colaboração com ele para a sua personagem?
Não havia um método. Ele deu o guião, ensaiamos todos juntos, ele faz sugestões e depois emana uma confiança enorme aos atores.
Inspirei-me muito em pessoas que conheço. A minha personagem está sempre a fumar charros, eu nunca fumei um na minha vida (risos). Conheço muita gente assim, que passam a vida a fumar.
E outra coisa boa é que o Cédric acompanha-nos sempre [nas filmagens], o que é ótimo.
Ele é muito rigoroso com o texto ou nem por isso?
Não. É um filme com muito texto, mas ele estava sempre pronto para as “surpresas”. Não obrigava a seguir à risca tudo o que está escrito, ele procura sim os melhores momentos para uma sequência.
E como foi estar “no palco” ao lado de nomes como a Catherine Deneuve e Emmanuelle Bercot?
Foi maravilhoso. Não sei bem explicar, mas senti todos como “camaradas”. Existiu um sentido de camaradagem imediato. Inicialmente, tinha um pouco de receio.
Para mim, a Catherine Deneuve é uma espécie de monumento. É como se estivesse a trabalhar com o Arco do Triunfo (risos). Mas depois do primeiro dia de trabalho, e como ela está sempre presente com aquela qualidade e exigência, tudo se tornou normal.Foram excepcionais e generosas, as duas. A Bercot é uma ótima atriz. Muito boa, mesmo.
O Vincent é muito prolífico no cinema. Onde arranja tempo para tudo? Por exemplo, neste momento tem três ou quatro filmes onde participa a serem lançados [isto para além de fazer teatro]?
Três ou quatro? Bem, é possível [risos].
[risos] Sim, por exemplo, trabalhou com o Wes Anderson no “The French Dispatch”!
Sim, mas não posso dizer que atuei. Tenho uma mini aparição, um pouco bizarra mesmo. O que faço na obra é meramente anedótico, verdadeiramente figuração. Mas é genial ver a forma como o Wes Anderson trabalha, mas apareço apenas momentaneamente”.





E no filme do Laurent Lafitte, como foi o trabalho?
Foi engraçado porque o Laurent Lafitte está no extremo oposto do Cédric Khan. Tudo está escrito e temos de seguir à vírgula. Temos de seguir o ritmo da palavra. Já vi o filme e está soberbo. Aquilo que ele fez é de uma precisão alucinante, mesmo que a história seja idiota e alucinante. O Laffite fez vários espetáculos alucinantes no teatro em França com um rigor e precisão incríveis e no filme encontrei tudo isso. Tudo é louco, mas implacavelmente rigoroso.
E o Vincent, continua a fazer o teatro? É algo para continuar, não?
Sim, amo o teatro.
E uma série de TV, para quando?
Gostava muito e estou aberto a isso. E gosto muito de séries como o Sucession (HBO).
E há alguém no futuro próximo com quem gostaria de trabalhar?
Muitos, há muita gente com quem gostaria de trabalhar…
E, por exemplo, fora de França, nos EUA. Tinha interesse?
Sim, claro. Toda a gente adoraria, desde que fossem bons filmes. Há grandes atores em todo o lado, em Portugal também. Nos EUA, já fiz um pequeno trabalho com o Larry Clark…
E até poderia trabalhar em Portugal…
Sim, gosto por exemplo do Miguel Gomes. É um pouco bizarro quando perguntam isso, porque estamos a falar de pessoas que não conhecemos verdadeiramente. E por cá não temos assim tantos filmes portugueses a estrear, mas vi um…. [Vincent tenta lembrar-se] superinteressante, com um jogador de futebol…
O “Diamantino”, do Gabriel Abrantes?
Exato, o “Diamantino”. Como disse, é bizarro dizer estas coisas e até injusto [para os bons cineastas que não saltam as fronteiras]. No meu caso, quero trabalhar em todo o lado, em todo o mundo.

