«La fille du 14 juillet» (A Rapariga de 14 de julho) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

A França enlouqueceu!“, exclama às tantas um personagem numa correria alucinada em nome da “revolução”. De acordo com a tese deste filme de estreia de Antonin Peretjatko, um surto delirante é a única saída para os franceses – a viver num país arruinado pela crise e por uma classe política sem ideias.

Não por acaso, “A Rapariga do 14 de Julho” começa com as comemorações da data que dá nome ao filme (a da queda da Bastilha, que deu início à Revolução Francesa) em tom de deboche. No evento Truquette (Vimala Pons), uma espécie de Amélie com um parafuso a menos, vende miniaturas de guilhotinas, enquanto o desanimado guarda de museu Hector (Grégoire Tachnakian) sonha com ela depois de a ter conhecido de fugida no seu local de trabalho.

Para sacudir o marasmo, Peretjatko põe tudo em movimento e o filme torna-se um road movie, com os protagonistas unindo-se a outros três personagens que vão se dirigir à praia com eles: Pator (Vincent Macaigne), um tresloucado amigo de Hector que foge da polícia por exercício ilegal de medicina, uma lasciva amiga de Truquette chamada Charlotte (Marie-Lorna Vaconsin) e o seu irmão Bertier (Thomas Schmitt), cujo foco essencial da sua existência é a leitura de um manual sobre como conquistar as mulheres.

Com aquele sentido político afiado muito ao gosto de um certo cinema francês, Antonin Peretjatko desconstrói tudo e aproveita para gozar com comunistas, conservadores, revolucionários e com tudo que cruzar no caminho dos seus viajantes.

Para além de mostrar um país órfão da sua maior referência, simbolizada na procura frenética pela “rapariga do 14 de julho”, o filme também identifica uma sociedade hedonista, ilustrada no lema de Pator “amor, carros e bebida”, ou esmagada pela apatia e pela obediência (o personagem de Esteban, “Julot”) que nem se revolta quando o governo, em nome do esforço de recuperação nacional, decreta o fim das férias! Em outro momento, alguém diz que a França virou um “país de faroleiros”, cuja única finalidade é guardar o património do passado.

Amparado nestes e outros simbolismos, Peretjatko constrói a sua sátira com uma mistura que reúne paradigmas dos mais variados tipos de comédia – de costumes, romântica, negra, anárquica, non sense. Não raro, atinge a mais completa parvalheira.

Neste sentido, o filme acaba por ressentir-se ao enveredar por aquele estilo cómico onde a história torna-se irrelevante diante da maluqueira reinante. Isto torna-o demasiado dependente das piadas terem graça – o que nem sempre ocorre. Alguns momentos são mesmo hilários mas, quando tal não sucede, o filme torna-se pouco interessante – para além de que as idiossincrasias cómicas que fazem os franceses rirem nem sempre são palatáveis aos outros povos.

O Melhor: piadas políticas certeiras
O Pior: nem sempre tem graça


Roni Nunes

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