«Blanche comme neige» (Branca como a Neve) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Era importante contar a história erótica de uma mulher, com várias hipóteses amorosas em aberto, sem ser chamada de puta” – Anne Fontaine

Uma releitura com um olhar feminino ao famoso conto da Branca de Neve dos irmãos Grimm, Branca Como a Neve de Anne Fontaine confirma uma cineasta que mantém os seus temas de ordem habituais na narrativa (ingenuidade e fragilidades propulsoras da emancipação e mudança), enquanto entrega esteticamente um trabalho longe do naturalismo num mundo que se assemelha ao nosso, mas não é.

A Branca de Neve aqui é Claire, que trabalha no hotel que antes pertenceu ao pai e é agora gerido por Maude, a madrasta. Maud, incapaz de reencontrar a juventude e incapaz de amar, percebe que o seu jovem amante se está a deixar levar pela beleza da enteada, decidindo assim ver-se livre dela. Afastada para uma pequena aldeia no interior de França, Claire vai conhecer sete homens com quem, de uma maneira ou outra, se vai envolver com eles, transmitindo a cineasta um erotismo e sensualidades longe dos cânones da manipulação, misturando carnalidade com espiritualidade num evenvolvimento sem malícia que transparece até nos inocentes acordes de um violoncelo.

Era importante contar a história erótica de uma mulher, com várias hipóteses amorosas em aberto, sem ser chamada de puta“, definiu-nos Anne Fontaine numa entrevista, na qual também deixa claro o leitmotiv para adaptar num tom de comédia negra um conto clássico, imortalizado no cinema pela Disney, a empresa que mais tem “purificado” e esterilizado o cinema de carnalidade através do eufemismo encapotado de “filmes familiares”.

E ao escolher a Branca de Neve, Fontaine dá um pontapé nesse puritanismo (ela próprio o admitiu na nossa conversa), tendo ainda a vantagem de estarmos aqui perante uma visão feminina, que neste caso concreto – e dadas as particularidades da autora – se pode definir como um “Anne Fontaine Gaze“: uma visão sedutora e imaginária que vai além da binaridade (bons/maus) tão usual no cinema espetáculo para as massas.

Uma nota final para a dupla de atrizes, Lou de Laâge (a transmitir pureza e desenvolvimento pessoal longe de arquétipocs) e Isabelle Hupppert, “a nossa perversa” de serviço longínqua dos chavões, nem que seja por estar presa entre a ténua linha ambígua da vilã clássica e da vítima (com a malapata de não poder amar). E Fontaine convoca ainda os códigos de Hitchcock para, à sua maneira – tão particular nos tempos que correm – contar uma história em capítulos tão maduros como subversivos.


Jorge Pereira

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