Kirill Mikhanovsky: «Cinema é língua, edição é linguística»

(Fotos: Divulgação)

Uma das inesperadas surpresas na Quinzena de Realizadores de 2019, Give me Liberty (Liberdade), chegou ao VOD. O C7nema falou com o realizador durante a sua estreia em Cannes.

Chris Galust e Lolo em Give me Liberty

Kirill Mikhanovsky surgiu perante nós com um sorriso de “orelha a orelha” e tinha motivos que sobrasse para tal. Para além da estreia da sua terceira longa-metragem na conceituada Quinzena dos Realizadores (depois de ter passado por Sundance), Give Me Liberty foi recebido de forma entusiástica. O realizador e o seu elenco estiveram presentes nessa sessão, finalizada com uma longa ovação. No dia seguinte, lá estávamos nós para uma conversa matinal na praia do Croisette, naquele que foi um dos poucos e solaregos dias no decorrer das quatro simultâneas mostras de cinemas em Cannes.

A verdade é que Kirill já tinha estado presente nesta cidade costeira em tempos de celebração do cinema. Mais concretamente em 2017, quando participou no argumento do seu companheiro de viagem Fellipe Barbosa, cineasta brasileiro que havia “picado o ponto” na Semana da Crítica com Gabriel e a Montanha. Mas esta é a sua oportunidade de consagração, o seu Give me Liberty estava realmente a conquistar o público e a crítica.

A Liberdade de um homem só.

Give me Liberty leva-nos à “comédia de vida“,. É desta forma que Kirill resume o seu trabalho, plenamente inspirado na sua experiência pessoal e profissional. Tal como o protagonista, Vic (Chris Galust), o realizador trabalhou em tempos, “8 a 9 meses” (para ser concreto), como motorista de uma carrinha de transporte de pessoas incapacitadas: “Foi o trabalho mais duro que alguma vez tive (…) Contudo, foi a minha melhor experiência, enquanto profissional e como ser humano. Aprendi muito a observar. (…) Recordo de, certa vez, ter transportado 6 clientes, todos eles de cadeira de rodas, durante a noite. Foi a primeira noite de nevão desse ano, e nesse tempo não tinha GPS, nem nada que igualasse (…) Tinha que conduzir bastante devagar, a estrada estava perigosa e o que queria mesmo era levar os meus clientes às suas respetivas casas … e ir depois para a minha casa. Mas perdi-me e os meus clientes nem sequer podiam-me ajudar. Lembro-me perfeitamente, que tinha vontade de largar as chaves da viatura e ir-me embora. Obviamente, que não fui.”

Apesar da inspiração, Kirill garantiu que Give me Liberty é “ficção, não é uma autobiografia em alguma forma. Mas é pessoal como aquilo tudo que faço (…) É um filme bem pessoal, mas convém esclarecer que nunca conduzi octogenários para um funeral. [risos]” O funeral, mencionado pelo próprio, é uma das várias gags caóticas que marcaram o dia do seu Vic, um jovem russo-americano que enfrenta um dia cheio de malapatas e de iguais oportunidades. Nesta sua jornada acidental, serão muitas as personagens, que vão do hilariante ao trágico, que o colocarão no centro de algo maior do que ele próprio. “Queria dignificar essas histórias, essas pessoas, não queria ser injustos para com eles

Os atores Chris Galust e Lolo ao lado do realizador Kirill Mikhanovsky

Este filme parece uma tragicomédia. Todavia, quando nos aproximamos, percebemos o quão trágico é. (…) Nós não tentamos fazer aqui trabalho social, nem sequer resolver problemas.

Kirill trabalhou maioritariamente com não-atores, de forma a construir um filme que – acima de tudo – convencesse o espectador da sua veracidade, mesmo com as caricatas situações que manifesta. Porém, “tudo o que vemos ali é dirigido. Nós tínhamos um guião, uma estrutura a cumprir“.

E é através destes não-profissionais que o realizador delineia uma outra América, uma comunidade que vive à margem do chamado sonho americano. “O que é o sonho americano? É uma piada? Um objetivo? Uma questão económica? Ou uma questão social? (…) Internacionalmente tornou-se conhecido por tudo isso, e é por isso, que muitos proclamam felicíssimos pela ‘morte do sonho americano’. Eu não gosto disso.

Foi essa alusão de sonho americano que o filme adquiriu o seu título – Give me Liberty – como parte de uma célebre citação do advogado e político Patrick Henry (“give me liberty, or give me death!“), proferida na Segunda Convenção de Virgínia em 1775. Kirill Mikhanovsky referiu que essa apropriaçãocomeçou quando num café reparou em alguém com uma t-shirt amarela, com a frase estampada em conjunto com uma imagem da estátua da liberdade. “Usamos isso como o tom correto do filme“, disse, acrescentando que durante a rodagem, que prolongou-se por dez dias com uma centena de personagens posicionadas numa intriga de um dia só, foi utilizada a exata t-shirt, que, sem explicação, desapareceu durante esta correria. Mas Give me Liberty ficou: “nunca pensamos em outro título sem ser este.”

Sobrevivendo a Give me Liberty

Grande parte da obra decorre no interior de uma carrinha encafuada de gente. É possível o espectador testemunhar o caos que incide pela estrada fora. “A personagem central do filme é a carrinha, pois é através dela que nos conectamos com todas estas personagens diferentes e marginais, aquém do vislumbre do sonho americano.”.

Questionando sobre a rodagem, nomeadamente nas sequências da carrinha abarrotada ou do climax, Kirill encolheu os ombros, rindo: “Simplesmente fazendo. Não tínhamos outra opção, por isso fizemos o que pudemos e da forma como conseguíamos.

O realizador ainda especificou as dificuldades, nomeadamente, nas cenas no interior da viatura: “Filmávamos a quase 90 km/h e demorávamos cerca de uma hora só para colocar os atores [maioritariamente incapacidades] dentro da carrinha. Era um processo demorado e, coitados, bastante doloroso. Estas mesmas cenas foram concebidas através da dor e do esforço, e tínhamos que nos certificar que estavam confortáveis e – mais importante de tudo – seguros. Não foi fácil, estava frio e no interior o ar era quase sufocante. (…) Sentíamos como se estivessemos à beira de um desastre.

Na rodagem de Give me Liberty

Cada dia era como caminhássemos para uma câmara de tortura“, acrescentou de forma a sublinhar as dificuldades que ele e a sua equipa tiveram durante a rodagem, não descurando o papel da edição na criação do ritmo e na manutenção da perceção do espectador em cenários limitados ou simplesmente saturados. “Cinema é língua, edição é linguística (…) foi imperativo fundir as imagens com a alma delas. O ritmo é uma questão importante, porque ela não vem do corte, nem do tempo do corte, mas sim do sentimento que a cena transmite. (…) No fundo, a edição é pegar num filme idealizado e montá-lo até se tornar em algo completamente distinto.

Na captação do som destas sequências-limite, Kirill não poupou elogios à sua equipa do departamento, salientado a dedicação de Jeremy Mazza, que havia trabalhado inúmeras vezes com Harmony Korine (Trash Humpers, 2009). “Aquilo era uma verdadeira guerra, a minha sorte é que tinha os melhores ‘combatentes’ do meu lado.

Durante a nossa conversa, o realizador, filho de imigrantes russos, descreveu a sua obra como mais objetiva e genuína pelo facto de trabalhar com “pessoas reais“, do que aquelas que popularizaram a imigração do leste na indústria norte-americana. “James Gray e David Cronenberg, por exemplo, fizeram coisas completamente distintas; usaram atores que não correspondem aquelas personagens. Prefiro o meu trabalho, saiu mais verdadeiro e direcionado. (…) Os meus atores tinham as suas adversidades reais, tinham a sua própria ‘bagagem’, não precisavam ser treinados nem tentar ser o que não são, ou que não compreendem. São de carne e osso. (…) No meu primeiro filme, Sonhos de Peixe [2006], eu queria que o pescador brasileiro fosse realmente um pescador, pretendia essa veracidade. Basta só ver A Terra Treme, de Luchino Visconti, e perceber que o mais credível daqueles pescadores eram os que realmente eram pescadores.”

Maxim Stoyanov em Give me Liberty

“Encontrar a pessoa certa para a personagem certa é de ouro!”

Kirill reforça ainda o seu trabalho com os seus atores, referindo Lauren ‘Lolo’ Spencer como a verdadeira força do filme e dos desafios que superou em conjunto com o protagonista, Chris Galust: “um ator sem treino que conseguiu transcender essa falta de experiência de forma brilhante. É um rapaz de grande coração,  e , vê só, ele foi realmente o condutor durante todo o filme. (…) Tudo estava apoiado nos seus ombros. Se o filme resultou foi graças ao seu esforço, à sua dedicação. Chris é o ator mais duro e resistente que conheci. Felizmente não cedeu à pressão. A proeza foi inteiramente dele.”

O realizador ainda destacou a sua colaboração com dois profissionais de valor: Darya Ekamasova e Maxim Stoyanov. Em relação a este último, as palavras foram, acima de tudo, de apreço: “Eu insisto, e estou farto de insistir nisto. O Maxim é incrível, aposto com todas as minhas forças que será uma das grandes estrelas do cinema europeu, só não entendo como é que a indústria cinematográfica russa não utiliza-o tantas vezes como devia. Ele é uma figura para o futuro.”

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