Nina Hoss: “Não vou trabalhar tão cedo com Christian Petzold”

(Fotos: Divulgação)

É quase impossível falar de Nina Hoss sem associá-la ao cinema de Christian Petzold, com o qual colaborou por seis vezes. Estrela de filmes do cineasta germânico como “Bárbara” ou “Phoenix”, a atriz abordou o seu presente e futuro numa entrevista em San Sebastián em 2019, ano em que apresentou no certame e foi distinguida como melhor atriz em “A Audição”.

Não vou trabalhar tão cedo com Christian Petzold”, disse-nos Hoss, sem se alongar em pormenores da razão que levou a essa realidade. “Fizemos uma pausa na nossa colaboração”.

Em “Das Vorspiel” (A Audição), que chega aos cinemas nacionais no próximo dia 10 de março, Hoss assume o papel de Anna Bronsky, uma professora de violino no conservatório que tem de lidar com os seus próprios dilemas e problemas (familiares e pessoais) enquanto leciona um jovem que aceitou ensinar, indo mesmo contra a sua instituição. 

A Anna é uma mulher que é muito segura de si mesmo, mas é alguém que num momento chave da sua vida pergunta a si mesmo: ‘e agora?’ Ela sabe onde quer chegar, mas algumas portas estão a fechar-se e os sonhos a esbater-se. De repente é confrontada com o facto de estar a viver coisas que não controla, que lhe escapam-lhe, e ela percebe que não é possível controlar a vida“, explicou-nos Hoss, acrescentando que no fundo a sua personagem não vive a vida, mas é consumida por ela: “Ela tenta gerir muitas coisas à sua volta, mas perde o controle. Ela quer controlar o filho, o marido, mas não se apercebe o que vai acontecer ao seu casamento com as suas ações. Ela ultrapassa as fronteiras e magoa as pessoas – como o seu estudante – nessa busca pelo “melhor”.

Destacando a obsessão pelo perfeccionismo da sua personagem, que põe mesmo em risco a estabilidade da sua família, Hoss reconhece que a arte permite um crescimento e uma evolução pessoal, mas relembra que para crescer e evoluir tem que se arriscar e ter a noção da hipótese de falhar. “Não podes acreditar depois do teu primeiro falhanço que és um falhado e deves desistir”, frisa a atriz, contando a história de um chef italiano muito famoso que só tinha uma pequena porção da sobremesa para um crítico gastronómico importante, mas deixou-o cair e teve de improvisar: “Isto acontece na arte, tens de trabalhar e ultrapassar os limites e tens de encontrar nesse desejo, algo diferente, louco, algo que outras pessoas nem sequer imaginam. O bom ou mau professor é aquele que te ensina isto. A Anna sente isso. Esta grandeza e força que há nela é igualmente o seu maior inimigo.“

A sua interpretação em A Audição – cuja preparação envolveu a aprendizagem de violino – valeu a Nina Hoss o prémio de melhor atriz em San Sebastián (ex aequo com Greta Fernandez, por La Hija de un Ladrón) e a atriz explicou ao C7nema que a sua tendência de trabalhar mais em séries e filmes revela que é onde o negócio e a indústria estão. Por isso mesmo vimo-la no pequeno ecrã em “SHADOWPLAY”, “Criminal: Germany” e “Jack Ryan” diz que há muito espaço na sua carreira para trabalhar no Cinema, como neste “A Audição”, ou em “Pelikan Blut” e “Irmãzinha“, e que tem privilegiado o trabalho com realizadoras, em vários países, como em França e na Suíça.

Nina Hoss ao serviço de Ina Weisse

Nina Hoss e Ina Weisse

Para além do estudo individual de uma personagem repleta de ambiguidades, “A Audição” funciona igualmente como uma análise à educação musical como um sistema de aprendizagem tão exigente e ambicioso que pode destruir as pessoas. A realizadora Ina Weisse disse isso mesmo em San Sebastián, mas frisou que essa pressão e competitividade não é exclusiva deste mundo, encontrando-se igualmente – por exemplo – no desporto.

Ainda assim, o facto da cineasta – que também é atriz – ter estudado violino no seu percurso juvenil foi muito importante na construção do argumento deste A Audição, coescrito em parceria com Daphne Charizani, também ela com um passado musical, mas no violoncelo: “Tenho uma relação muito pessoal com a música, pois em criança tocava violino e os meus pais figuravam numa orquestra, por isso conheço a pressão. O filme não é de todo biográfico, pois nunca cheguei a atingir aquele nível, mas conheço este mundo, a sua atmosfera, e isso é muito importante, pois não podemos descrever bem o que não conhecemos.

Já sobre o facto de ser uma realizadora com um passado como atriz, Weisse explicou que também isso funciona como uma mais valia para a tarefa da realização: “Dou espaço aos atores, pois era o que apreciava quando interpretava um papel. E tento observar os atores e as atrizes em detalhe, para os poder ajudar naquilo que precisarem. Naturalmente aprendi muito como atriz, mas como realizadora também percebi o que foi útil nessa aprendizagem para ser atriz. Quando trabalhamos numa equipa, a coexistência é um facto, nós estamos juntos.

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