Nicolas Bedos: «fazer filmes que não tenham medo de sentir e com interesse nas mulheres»

Nicolas Bedos renuncia qualquer referência a um novo cinema francês. Não é essa a sua vontade e, tendo em conta a premissa de La Belle Époque, percebemos o quão nostálgico o realizador é.

(Fotos: Divulgação)

Na sua segunda longa-metragem, na qual volta atribuir um papel relevante à sua mulher – a atriz Doria Tillier – somos apresentados a Victor Drumond (Daniel Auteuil), um velho cartunista que perante as crises matrimoniais requisita os serviços de uma empresa especializada em recriar memórias longínquas. Essa mesma, coordenada por Guillaume Canet, tem um propósito: relembrar um antigo e primordial amor.   Bedos recorda os sentimentos de um cinema em vias de extinção perante as novas linguagens que vêm surgindo e cita constantemente Claude Lelouch como o seu santo padroeiro. Não é coincidência. La Belle Époque foi selecionado para Fora de Competição na última edição do Festival de Cannes, a mesma secção onde a nova obra do seu mestre – Les Plus Belles Années d’une Vie – também marcou presença.   O C7nema falou com o realizador durante o último Festival de Cannes, questionando sobre o seu cinema, sentimentos e reflexões. Fala-se mais que nunca de um Novo Cinema Francês, com novos nomes, novos estilos e novas abordagens. Sente-se dentro dessa facção onde se inclui, por exemplo, Michel Gondry? Tenho que confessar, e não quero ser indelicado, mas não me revejo nesse novo cinema francês, apesar de assumir que possuo uma metodologia e uma visão própria. Muitos já me falaram desse novo cinema aqui [Cannes], só que de momento sinto-me alheio a isso.    

Em relação a Cannes, o que sentiu em relação à seleção do seu filme? Uma grande surpresa! Eu era a última pessoa a acreditar que este filme integraria a Seleção Oficial. A notícia foi-me dada pelo próprio produtor e fiquei orgulhoso pelo facto de uma pessoa como o Frémaux ter secretamente defendido o filme quanto à sua entrada neste festival. Foi um verdadeiro presente.
Esta busca pelo passado sentimental de Daniel Auteuil reflete uma crítica aos nossos tempos, nomeadamente ao frenesim das redes sociais e da velocidade de informação que nos distancia emocionalmente mais um dos outros? A personagem do Daniel Auteuil reflete a minha velha ambiguidade para com o progresso. Admito que sou viciado nas redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter) no meu dia-a-dia, e uso isso de forma otimista, enquanto uma parte de mim receia e teme pelo desaparecimento das interações simples e pessoais, assim como os jornais na sua maneira tradicional.   Preocupa-me também que as novas gerações consumam séries da mesma maneira que consumem doces, não “saboreando” os diálogos nem a escrita das mesmas. A minha raiva, assim como o meu prazer, andam de mãos dadas. Julgo que o filme não “escava” isso, apenas demonstra alguém que tem receio das novas tecnologias. A personagem é também uma reflexão minha ao longo do filme: a de encontrar esperança num meio-termo deste Mundo.  

Vivemos num Mundo tão desmaterializado que sentimos necessidade de recorrer ao material para invocar emoções.

Sim, temos a apetência de ceder ao físico como antídoto a este mundo cada vez mais desmaterializado. Tentei com este filme sugerir soluções, mas não impô-las. Não sou um Spielberg, nesses termos.

A solução advém de algo simples, algo que sempre esteve lá, ao lado da personagem do Daniel Auteuil. Não é uma solução miraculosa. No fundo, a temática do filme é aquilo que faço no cinema, maquilho sonhos e tento torná-los uma realidade.

Há um momento no filme em que alguém menciona: “até parece um filme de Lelouch“. Buscando a coincidência do seu filme estar lado a lado com o novo do Claude Lelouch e essa mesma referência, existe uma aproximação do seu cinema com o do veterano?

Sim, não é uma referência ocasional, nem mesmo esta partilha na seleção é coincidência. Ele foi um encorajamento para este filme. O Lelouch falou positivamente do meu primeiro filme [Monsieur & Madame Adelman], deu-o a conhecer aos outros. Ele acarinhou-me. Nós temos ideias diferentes acerca do Cinema, mas somos apaixonamos pelo amor, somos homens apaixonados. Nós partilhamos muitos temas: como Balzac ou Besson. Pretendemos fazer filmes que não tenham medo de sentir e com interesse nas mulheres.

O seu filme navega por entre géneros, como o romance e a comédia. No processo de escrita, visto que escreveu o argumento, como equilibra ambas as facetas? Qual dos géneros estava inicialmente planeado na concepção de La Belle Époque?

Não, o filme não estava inicialmente projetado para ser uma comédia ou um drama. Basicamente, a minha inspiração partiu das pessoas que amo, a minha família que, por exemplo, vem-se tornando cada vez mais sentimental e igualmente sarcástica. Algo normal, porque cada um de nós tem essas faces a coabitar, é por isso que não decido o tom a injetar nas determinadas cenas. Simplesmente, elas saem naturalmente, diretamente do meu comportamento ou de outras pessoas que amo. Talvez tenha feito algumas referências, mas a razão de viver o Cinema é a vida.

Mas voltando à comédia, há camadas de cinismo nos meus trabalhos, o que me evita de seguir diretamente pelo melodrama ou peo sentimentalismo, o que de certa forma é um salva-vidas para que não me afogue no mar.

Qual o seu próposito quanto ao seu Cinema, visto que renuncia as declarações de Novo Cinema Francês?

Não tenho uma ideia-chave na conceção dos meus filmes, nem sequer tento impô-la aos espectadores. Não quero fazer um cinema ditador que transpasse a ideia de algo, como, por exemplo, usem preservativos ou votem à esquerda. O que desejo com o meu cinema é que o público saia confortável após horas de prazer. Obviamente que acredito na reconciliação. Acredito que nós, seres humanos, somos capazes de renascer perante as adversidades e tornar-nos pessoas melhores. Quero que os filmes inspirem as pessoas mas que igualmente digam: isto é importante, mas não é vital. A vida é um jogo, o cinema também o é.

Últimas