No Brasil, Sergei Loznitsa é como fosse da casa.
A sua amizade com o realizador de O Som ao Redor, o pernambucano Kleber Mendonça Filho, deu-lhe um passaporte vitalício pelos ecrãs brasileiros, o que torna obrigatória a presença do seu mais recente trabalho, State Funeral, num evento como o Festival do Rio. O filme saiu do Festival de Marraquexe, onde o realizador bielorrusso deu uma masterclass, diretamente para solo carioca. Pelo Rio de Janeiro, a produção terá sessão nesta sexta, pelas 21h30, no Estação Net Rio, com nova projeção no sábado, no Net Gávea, às 15h30.
Dono de uma obra documental marcada por estudos sobre a paisagem e a população russa, com filmes como Vida, Outono (Zhizn, Osin, 1998), The Train Station (Polustanok, 2000), e Retrato (Portret, 2002), Loznitsa revive, nesta longa-metragem, imagens do enterro de Estaline, em 1953 – a maioria delas desconhecida. Na entrevista a seguir, dada ao C7nema em Marrocos, o realizador defende os seus parâmetros de sensorialidade.
De que maneira a noção de Tempo se desenha no seu cinema?
Se você analisa o Tempo em relação à dramaturgia do meu filme mais recente, State Funeral, no qual partimos de factos reais, a relação e a perceção física do que é cronológico passa pelo testemunhal. Quando o funeral de um líder como Estaline é visto à luz do jornalismo, como o de uma BBC, temos uma estética de registo. Mas se esse mesmo funeral é visto pelo cinema, numa estratégia de dramaturgia que adjetiva o corpo à sua frente, temos uma estética de propaganda. É um mesmo espaço… uma mortalha… mas o Tempo se bifurca dependendo da luz.
O realizador de Aquarius e Bacurau, Kleber Mendonça Filho, foi um porta-voz do seu cinema nas Américas, ajudando a promover sobretudo os seus documentários em territórios de língua portuguesa. Qual foi a importância dessa conexão?
O Kleber tornou os meus filmes conhecidos no Brasil a partir do seu festival, o Janela do Recife, e deu-me a chance de ser conhecido por uma cultura bem diversa da minha, mas que partilha da inquietação similar em relação ao papel do cinema. Eu faço filmes para refletir sobre o mundo à minha volta, dirigindo de forma livre, do meu laptop.
O que a cerimónia fúnebre de Estaline, revisitada em State Funeral, revela sobre o bloco histórico de nações que a URSS foi?
Ali temos o altar de uma mitificação. Construí o filme para discutir o efeito de imortalidade. Naquele ritual mediático, Estaline vira imortal, da mesma forma como os hóspedes das pirâmides. É um efeito político de retórica, para manter um líder perene. Volto a essas imagens para que elas revelem, por si, o que essa perenidade produziu. Eu faço esse filme para combater o cliché de passado como instância de redenção.
Filmes como No Nevoeiro (V Tumane, 2012) pavimentam uma estrada pela fabulação que não te desapegou do Real. O trânsito pela linguagem documental é o que te assegura essa estética anfíbia?
Na fronteira dos dois registos está a fratura na relação entre Tempo e Espaço que mais me interessa: o momento em que História vira ilusão.

