Bruno Dumont: “A Joana d’Arc está em cada um de nós”

Em Jeannette e Jeanne, Bruno Dumont reconstrói de forma provocativa o mito de Joana D'Arc

(Fotos: Divulgação)

A vida de Joana D’Arc é uma vida mística, misteriosa e extravagante. Expressa o mistério da condição humana. O meu trabalho é transformar o mistério em algo palpável, dar-lhe forma. A catedral é a representação externa da sua alma. Não estou particularmente interessado na História, mas sim na intemporalidade dos elementos da história da Joana D’Arc. Da mesma forma, a atuação dos atores não é realista. Eu tento travar o espectador de ver o filme como algo histórico baseado em factos. É por isso que escolhi uma jovem de 10 anos para interpretar alguém que na vida real tinha 19 anos. A Joana D’Arc está em cada um de nós.” Estas palavras foram produzidas em Cannes ao C7nema pelo cineasta Bruno Dumont, logo após a exibição de Jeanne, sequela de Jeannette, que recentemente foi considerado o melhor filme de 2019 no Prémio Louis Delluc.

Estávamos em 2017 quando Bruno Dumont decide lançar Jeannette, l’enfance de Jeanne d’Arc, filme inédito no circuito comercial português (tal como a sequela) que apresentava uma versão muito própria e musical da história da famosa personalidade da cultura gaulesa. Os primeiros momentos do filme são imediatamente explícitos para o afastamento de Dumont de qualquer tentativa de realismo. A pequena Joana D’Arc canta desafinada, sem artifícios suavizantes e melódicos que caracterizam o género dos musicais. Ao invés, a música eletrónica impõe-se, isto enquanto ela canta e dança desenfreadamente, sem qualquer noção de ritmo. Na sala de exibição em Cannes surgiram, naturalmente, vários abandonos precoces e criticas, tornando o filme num dos mais divisivos do ano, capaz de figurar no 2º posto dos melhores da Cahiers Du Cinéma, mas igualmente uma figura presente na lista dos piores de muitos outros meios e críticos.

Sobre as motivações que o levaram a contar novamente a história de Joana D’Arc nos tempos que correm, Dumont avisa: “Faltava dar a esta história universal e intemporal a modernidade. É uma história mítica, que já foi filmada umas 40 vezes e pintada de mil e uma maneiras. É um assunto, um tema sem fim. A Joana D’Arc é uma das metáforas mais espirituais da condição humana e é por isso que os cineastas se interessam por ela. E ao mesmo tempo, o mundo muda, mas há coisas que nunca mudam. A minha ideia foi modernizá-la“.

De Jeannette a Jeanne

Dois anos depois, e logo após ter trabalhado numa sequela de O Pequeno Quinquin, Dumont decidiu avançar para a sequela de Jeannete, na forma de Jeanne. “Gostei muito de fazer a Jeannete, foi muito bom, mas não terminei a minha abordagem em torno dela. Quis fechar a história e ao mesmo tempo renovar musicalmente a obra. De reinventar, de a colocar em batalhas e terminar o que tinha começado”, diz-nos, abordando o problema com que se deparou quando a atriz que fazia a personagem de Joana D’Arc em adolescente mostrou reservas em voltar a assumir o papel: “No final do Jeannete, tinha uma outra atriz, com 16, 17 anos, que faz o filme. Fizemos um acordo e ela disse-me que faria a sequela. Escrevi o argumento e quando lhe telefonei senti que ela tinha reservas em participar, pois tinha de cortar o cabelo, fazer cenas a andar a cavalo. Senti que havia muitas reservas, obstáculos. Não insisti, não a queria forçar.

Esse problema subsistiu até três meses antes das filmagens, altura em que o realizador tomou a decisão que sentiu ser a mais apropriada: “Não acredito na reconstituição histórica, por isso, 3 meses antes de filmar, não tinha ninguém para o papel. E disse: pronto, vamos fazer com a atriz que fez da Joana D’Arc em criança. De facto, achei que era uma grande ideia, pois por um lado ela expressava a sua criancice, ingenuidade, paixão e energia“.

Ao realizador agradava igualmente a desconexão da atriz com a personagem real, que na vida real era mais velha: “Sabe, na pintura flamenga vemos muitas vezes as figuras desproporcionais em relação à tela, demasiado pequenas ou grandes em relação ao todo. Achei isso interessante, essa desproporção na Jean, demasiada pequena para o mundo em que está, o que deu uma maior profundidade ao filme e expressividade a ela.” Aprofundando a questão, Dumont dá os exemplos dos filmes de Carl Theodor Dreyer, onde Renée Jeanne Falconetti, que interpretava a personagem, tinha 35 anos, e na fita de Rossellini (Joana D’Arc na Fogueira), onde Ingrid Bergman tinha 39 anos.”O problema não é a idade, o que interessa é o simbolismo. Acho que até podíamos ter um rapaz a fazer de Joana D’Arc“, conclui o tópico.

A reinvenção musical

Se em Jeannette predomina a musicalidade eletrónica e o heavy metal, na sequela as coisas são diferentes. “Acho que música eletrónica e o Hevy Metal são totalmente apropriadas para tratar a questão da conversão mística da pequena pastora. São coisas que trazem com elas um êxtase (…) a música eletrónica repetitiva era apropriada para mostrar isso.” Já nesta sequela, com a utilização do conhecimento adquirido da vida espiritual de Joana D’Arc, em batalhas, por exemplo, Dumont crê que a música eletrónica já não era a melhor escolha: “Procurei encontrar algo melódico, mais acessível. Por isso pensei no Christophe, que é muito conhecido em França, alguém muito popular, que canta temas de amor, muito românticos, e que dá outro nível ao texto do Charles Peguy. O texto deste era profundo, às vezes difícil. A música do Christophe era para os meus ouvidos uma forma de o tornar mais acessível às pessoas. Quando ele canta estes textos densos, torna-os mais acessíveis aos nossos ouvidos“.

Novo projeto

Depois de filmar duas sequelas consecutivas, Coincoin and the Extra-Humans (continuação de O Pequeno Quinquin) e Jeanne, o cineasta francês vai regressar aos produtos “originais” com Par ce demi-clair matin.

Apoiado pelo Arte, o filme junta no elenco Léa Seydoux (A Vida de Adèle; 007 Spectre) e Blanche Gardin (Não Sou um Homem Fácil). O filme apresenta-se como uma crónica da vida frenética de uma estrela jornalista de TV, presa entre a celebridade e uma espiral de eventos que a vão derrubar. Entre o drama e a comédia, Bruno Dumont quer encenar a crise íntima e pública de uma jovem e desenhar uma imagem da França contemporânea.

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