O Festival de Sevilha pode celebrar o feito de ter esgotado salas e o facto de ser um grande evento da capital da Andaluzia
Eventualmente beneficiará do “hype” dos festivais, hoje em dia vistos como uma via de um sentido para que os espectadores tenham acesso a um evento alternativo com um trabalho de marketing em condições – coisa que os filmes independentes não têm nos seus lançamentos individuais. E, como tal, estão fadados a serem pouco vistos, mesmo depois de terem beneficiado de bom público nos certames cinematográficos.
O C7nema conversou com Elena Duque, uma das programadoras do Festival de Sevilha, sobre a questão das audiências, da participação do público, da ideia de Europa em crise, isto num evento que celebra a sua cultura. Por fim, abrimos a conversa a questões mais genéricas, como em que medida o politicamente correto está a dificultar a liberdade dos artistas. “Também me incomodam certos olhares no cinema de Kechiche“, diz Elena, respondendo à uma pergunta sobre uma das polémicas contemporâneas mais recorrentes. Ainda assim ela admite: “defendo que os artistas sejam livres e que as críticas nunca sejam para os impedir de fazer filmes“.
No todo, a programação do certame inclui 220 filmes, entre os quais 35 estreias mundiais. Segundo ela, os filmes são escolhidos por submissão e por pesquisas nos outros festivais, para além da atenção dada a cineastas que o festival gosta de seguir.
Cinema de autor x público generalista
O cinema de autor é uma etiqueta muito vasta e, para se ficar pelo Festival de Sevilha, pode abrigar cineastas francamente acessíveis, como Elia Suleiman ou Robert Guédiguian. Com o público a fazer longas filas para entrar numa das 11 salas do centro comercial Nérvion, a serviço do evento, a primeira questão lançada a Elena é como reage um público normalmente habituado ao storytelling formulaico de Hollywood?
“Na realidade é mais aberto do que poderia parecer. Sevilha é uma cidade que não tem Cinemateca e não há um espaço para projeções de cinema de autor. No entanto, o festival é um evento para a cidade e se é verdade que respondem mais rapidamente a filmes de autores consagrados, também se atrevem igualmente a filmes mais experimentais – como os da seção Revoluções Permanentes. Assim, não faz sentido o preconceito de que as pessoas menos cinéfilas vão ter mais resistência e acaba sendo surpreendente a forma como muitas vezes interagem com propostas muito experimentais“.
Há exemplos. Elena Duque relembra que há dois anos, uma sessão de um filme de uma realizadora austríaca, Antoinette Zwirchmayr (What I Remember), tinha uma narrativa fragmentada, espaços em negro e uma evocação ao mundo dos sonhos, e os espectadores ficaram até o final para conversar com a cineasta. O mesmo ocorreu este ano com Space Dogs, obra de Elsa Kremser e Levin Peter, onde durante todo o filme a câmara segue a perspetiva de cães que circulam pelas ruas. “É uma proposta muito atmosférica, mas o público foi capaz de se conectar e compreender o conceito“.
La buena salud del cine español
Recentemente, a realizadora Agnés Jaoui dizia ao C7nema que o streaming tinha ajudado a revitalizar o cinema espanhol. A curadora espanhola não tem muita certeza de que tenha sido esse o factor, mas concorda que se vive um bom momento por estes lados.
“É verdade que o cinema espanhol está com muita força. O galego, por exemplo, tem viajado por muitos festivais conhecidos, têm se espalhado muito“. Como exemplos no festival, Elena destaca obras como Longa Noite (de Eloy Enciso) * ou o Arima, de Jaione Camborda. Também há o Albert Serra (Liberté), que considera um dos cineastas mais importantes de Espanha, e filmes muito arriscados de jovens realizadores, como Big Big Big (Carmen Haro e Miguel Rodriguez) ou This Film Is About Me (Alexis Delgado Búrdalo). Já entre os mais acessíveis, existe o Madre, do Rodrigo Sorogoyen, que abriu o festival, e o Intempérie, de Benito Zambrano, com Luís Tosar no protagonismo.
Os desafios para a Europa
Para um festival fortemente conectado com a ideia de Europa, não deixa de ter relevância os desafios à unidade continental que se têm verificado e onde a própria vive um dos grandes riscos de fragmentação com a crise da Catalunha. Como reflete o festival essa questão?
“Creio que isso surge de maneira espontânea na programação, pois é tão variada em termos de procedência, de temas e de formatos que a diversidade fica refletida. Nós tentamos a ideia de uma Europa que se expande: há, por exemplo, um filme tunisino e outro argelino na programação. O continente tem um passado de ultrapassar fronteiras, seja como potências coloniais, seja em vagas de imigração diante das guerras. Assim, faz especial sentido termos na programação, por exemplo, alguém como o Abel Ferrara, um descendente que regressa, que vive em Roma e tenta conectar-se com as suas raízes“.
A liberdade criativa e “a questão Kechiche”
Diversos artistas têm reclamado das opressões conceituais que hoje vêm de uma estrita aplicação do “politicamente correto”. A crítica anglo-saxã, por exemplo, tem levado a sério um certo papel de tutelador daquilo que é correto mostrar segundo certos valores. Um dos casos mais notórios é, certamente, o do tunisino Abdellatif Kechiche, que tem enfrentado polémicas em Cannes, não pelo mérito ou demérito dos seus filmes, mas por um retrato de género alegadamente “incorreto”.
Diz Elena: “Bom, no caso de Kechiche, posso admirar a sua arte, mas também me incomoda um pouco a forma como mostra as mulheres. Mas não concordo que os artistas tenham que deixar de expressar-se por não serem politicamente corretos. A arte tem que ser livre e isso também implica enfrentar o mundo, ser criticado e saber responder a estas críticas“.
*A obra foi o filme de abertura do Doclisboa há dias atrás)

